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Jó 24:1 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Almeida Corrigida Fiel

" Visto que do Todo-Poderoso não se encobriram os tempos, por que, os que o conhecem, não vêem os seus dias? "

Jó 24:1

menu_book Versículo no contexto

1 Visto que do Todo-Poderoso não se encobriram os tempos, por que, os que o conhecem, não vêem os seus dias?

2 Até os limites removem; roubam os rebanhos, e os apascentam.

3 Do órfão levam o jumento; tomam em penhor o boi da viúva.

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auto_stories Comentário Bible Guided

Os amigos de Jó tinham certeza de que os perversos logo cairiam, mesmo que prosperassem por algum tempo. Jó responde: “Não, não é assim”. Ainda que os tempos não estejam encobertos ao Todo-Poderoso, os que o conhecem não veem logo “os seus dias” (Jó 24:1). Deus vê todas as épocas e todos os acontecimentos. Os tempos passados não estão encobertos ao seu juízo (Eclesiastes 3:15), os tempos presentes não estão encobertos à sua providência, seu cuidado sábio sobre o mundo (Mateus 10:29), e os tempos futuros não estão encobertos à sua presciência, seu perfeito conhecimento antecipado (Atos 15:18).

Porque Deus governa o mundo, é certo que ele nota tudo o que acontece nele. Tempos maus não se escondem dele, ainda que os maus digam: “O SENHOR não o verá, nem para isso atentará o Deus de Jacó” (Salmo 94:6-7). Os tempos de cada pessoa estão em suas mãos e sob seus olhos; assim, ele pode tornar amarga a vida dos ímpios ainda neste mundo. Ele conhece o exato momento da morte de cada um. Portanto, se os perversos morrem antes de receberem plena punição, não podemos dizer que escaparam de surpresa. Deus viu isso de antemão e, mais ainda, determinou que fosse assim.

Antes de perguntar por que os ímpios prosperam, Jó primeiro afirma o pleno conhecimento de Deus. De modo semelhante, outro profeta primeiro ressalta a justiça de Deus (Jeremias 12:1), outro a sua santidade (Habacuque 1:13), e outro a sua bondade para com o seu povo (Salmo 73:1). É preciso manter firmes essas verdades gerais, mesmo quando temos dificuldade de conciliá-las com o que vemos na vida.

Jó também diz que os que conhecem a Deus ainda não veem “o seu dia”, isto é, o dia em que Deus age em favor deles ou julga os pecadores declarados. Essa era a queixa do próprio Jó em (Jó 23:8), quando ele não conseguia ver Deus se manifestando para defendê-lo. É também o dia mencionado em (Salmo 37:13), quando Deus julga os ímpios. Cremos que esse dia virá, mas ainda não o vemos, porque está adiante de nós, e seus sinais permanecem ocultos.

Essa parte da providência é um mistério, mas há um motivo para isso, que será plenamente entendido depois. Nem mesmo as pessoas mais sábias entendem agora por que o juízo é adiado. Deus usa essa demora para provar a fé e a paciência deles e para incitar suas orações pela vinda do seu reino. Elas devem clamar a ele dia e noite por isso (Lucas 18:7).

Para provar que os ímpios muitas vezes prosperam, Jó aponta dois tipos de pecadores que todos veem florescer no mal. Os primeiros são os tiranos, e todos os que praticam injustiça fingindo agir com lei e autoridade. É uma cena triste, frequentemente vista debaixo do sol, quando a impiedade se assenta no lugar do juízo (Eclesiastes 3:16), quando os oprimidos choram e não há quem os console, enquanto a força está do lado de seus opressores (Eclesiastes 4:1), e quando a justiça é pervertida violentamente (Eclesiastes 5:8).

Essas pessoas tomam para si as terras de seus vizinhos, até mesmo propriedades herdadas dos pais. Mudam os marcos dos limites, fingindo que estavam colocados de modo errado, e assim roubam o que pertence a outros (Jó 24:2). Depois tentam dar aparência de legalidade a esse roubo em favor de seus filhos. Deus havia proibido isso na lei de Moisés (Deuteronômio 19:14) e colocou uma maldição sobre tal prática (Deuteronômio 27:17). Em nossos dias, falsificar ou destruir escrituras de propriedade é essencialmente a mesma coisa.

Eles também despojam as pessoas de seus bens, enquanto alegam agir com justiça. Tomam rebanhos como se fossem perdidos ou confiscados, e se alimentam deles como o homem rico que tomou a cordeirinha do pobre (2 Samuel 12:4). Se um órfão pobre tem apenas um jumentinho, eles arranjam algum pretexto para tomá-lo. Se uma viúva tem apenas um boi para lavrar seu pequeno pedaço de terra, podem tomá-lo como penhor por uma dívida pequena ou aluguel atrasado, mesmo sendo tudo o que ela tinha. Deus se apresenta como Pai dos órfãos e juiz das viúvas; assim, os que deixam de protegê-los e socorrê-los não são seus amigos, e os que os oprimem responderão a ele como inimigos.

Esses tiranos também maltratam diretamente as pessoas (Jó 24:4). Se encontram o pobre no caminho, enganam-no ou o afastam à força. Os pobres e necessitados precisam esconder-se deles, porque esta é a única forma de se manterem a salvo. Eles se deleitam em zombar das pessoas e em enganá-las, especialmente se são pobres. Afastam-nos de qualquer possibilidade de ajuda, ameaçam tratá-los como vadios, obrigam-nos a fugir e depois riem de sua miséria.

Alguns entendem os atos cruéis descritos em (Jó 24:9-10) como praticados por esses mesmos opressores sob a capa da lei. “Arrancam o órfão do seio materno”, isto é, fazem as crianças ficarem órfãs de pai e, depois, também de mãe. Matam o pai, quebram o coração da mãe e deixam os filhos à míngua, para morrerem de fome. Faraó e Herodes fizeram esse tipo de coisa ao matar crianças (Êxodo 1:22; Mateus 2:16). As Escrituras também falam de filhos gerados para a matança (Oséias 9:13). Tais pessoas são verdadeiramente desumanas, pois conseguem se alegrar em beber sangue inocente.

Elas também tomam penhores dos pobres e assim arrancam deles o pouco que têm. Alguns entendem que isso significa até mesmo tomar os próprios pobres como penhor. Isso pode ser o sentido de arrancar o órfão do seio, fazendo-o escravo, como em (Neemias 5:5). Crueldade para com os pobres é grande maldade e clama por juízo. Os que não demonstram misericórdia com aqueles que estão em seu poder receberão juízo sem misericórdia.

Outro sinal de sua crueldade é que tiram até comida e roupa. Sua extorsão aperta as pessoas de tal forma que elas andam nuas (Jó 24:10) e podem morrer de exposição. Se uma família faminta ajuntou apenas um feixe de trigo para fazer um pequeno bolo, a fim de comer e então esperar a morte, até isso lhes é tirado. Esses opressores parecem se agradar em ver pessoas perecerem de fome enquanto eles mesmos se fartos.

Jó também declara que eles são duros com os trabalhadores que contratam. Não apenas deixam de pagar o salário, embora “digno é o trabalhador do seu salário”, o que é pecado gravíssimo (Tiago 5:4), mas nem mesmo lhes dão alimento e bebida. Alguns entendem (Jó 24:10) assim: “Os que levam os molhos padecem fome”. Isso se encaixa com (Jó 24:11), onde os que fazem o azeite dentro de seus muros e trabalham no lagar ainda padecem sede. Isso é pior do que amordaçar o boi que debulha o cereal. Tais senhores se esquecem de que têm um Senhor nos céus, que não aprova negar o necessário sustento da vida a servos e trabalhadores.

Não é apenas entre os pobres do campo, mas também nas cidades, que se veem as lágrimas dos oprimidos (Jó 24:12). As pessoas gemem na cidade, onde ricos comerciantes e negociantes muitas vezes são tão cruéis com devedores pobres quanto os proprietários de terra com seus inquilinos no campo. Nas cidades, tais crueldades são mais facilmente percebidas do que em lugares escondidos do interior, e os injustiçados têm maiores chances de buscar justiça. Ainda assim, os opressores ali não temem nem os limites da lei, nem a reprovação honesta dos vizinhos. Os oprimidos gemem e clamam como feridos, mas não conseguem socorro, porque os opressores são duros e surdos a seus clamores.

Jó também fala dos salteadores, que praticam o mal com força aberta, como as tropas dos sabeus e caldeus que recentemente o haviam saqueado. Ele não os menciona diretamente, para não parecer parcial em relação ao próprio caso, nem julgar as pessoas, como frequentemente fazemos, apenas pela forma como nos tratam. Entre os árabes, os filhos do Oriente, povo da região de Jó, havia quem vivesse de roubo e pilhagem, fazendo incursões contra vizinhos e assaltando viajantes. Seu caráter, seu modo de vida e o dano que causam são descritos aqui (Jó 24:5-8).

Seu caráter é como o dos jumentos bravos no deserto: indomáveis, difíceis de controlar, irracionais, semelhantes ao caráter de Ismael (Gênesis 16:12), ferozes e selvagens, sem verdadeiro freio de lei ou governo (Jeremias 2:23-24). Escolhem o deserto como morada, para viverem sem regras e longe das pessoas, podendo assim fazer mais mal. O deserto é de fato lugar adequado para tais homens selvagens (Jó 39:6). Mas nenhum deserto pode pôr alguém fora da vista de Deus ou além do seu poder.

Sua ocupação é roubar, e eles se sustentam tomando o que pertence a outros. Escolheram isso como trabalho porque rende mais e exige menos esforço do que um labor honesto. Entregam-se a ele com zelo e constância, saindo a praticá-lo como o trabalhador sai ao seu serviço (Salmo 104:23). São diligentes nisso, levantando-se cedo em busca de presa. Se um viajante parte de madrugada, eles também se levantam cedo para assaltá-lo. Vivem disso como um homem vive do seu ofício. O deserto, isto é, as estradas que o atravessam, lhes fornece sustento para eles e seus filhos. Mantêm a si mesmos e à família por meio de assaltos em caminho, e ainda se abençoam em tal prática, sem vergonha, sem compaixão e sem consciência, agindo como se fosse ganho honesto, como Efraim (Oséias 12:7-8).

O trabalho deles traz grande dano ao país. Eles não apenas assaltam viajantes, mas também atacam seus vizinhos e colhem o cereal do campo (Jó 24:6). Isto é, entram nas terras de outras pessoas, cortam o cereal e o levam como se fosse propriedade deles. Até mesmo a vindima é colhida pelos perversos, e nisto já está a sua maldade. Ou, como o texto também pode ser entendido, eles colhem a vindima dos perversos, de modo que um ímpio acaba sendo castigo para outro. Aquilo que alguns maus ajuntaram por extorsão, o seu tipo particular de roubo, esses salteadores lhes tomam roubando à sua maneira. Assim, muitas vezes, os que roubam acabam também sendo roubados (Isaías 33:1).

A miséria dos que caem em suas mãos é terrível (Jó 24:7, Jó 24:8). Eles fazem com que os nus, que despiram e deixaram sem roupa, se deitem nas noites frias sem qualquer coberta. Os pobres são encharcados pela chuva dos montes e, sem abrigo, abraçam a rocha, contentes por achar numa caverna ou fenda algum refúgio contra o mau tempo. Elifaz havia acusado Jó de crueldade desse tipo, supondo que Deus não o teria despojado, se antes ele não tivesse despojado os nus de suas vestes (Jó 22:6). Jó está dizendo que, de fato, havia pessoas culpadas exatamente desses crimes, crimes pelos quais ele estava sendo falsamente acusado. No entanto, esses ímpios prosperavam e tinham sucesso em sua maldade, e a maldição que traziam sobre si mesmos agia sem ser percebida. Jó entende que é muito mais justo raciocinar como ele faz, indo da maldade aberta e evidente para o castigo futuro, do que raciocinar como Elifaz, que ia do sofrimento presente para um pecado passado oculto.

O fato de esses opressores e ladrões ficarem sem castigo é resumido em uma frase: Deus não os lança logo em loucura (Jó 24:12). Isso quer dizer que ele não traz imediatamente juízo sobre eles por seus crimes, nem os torna logo exemplos diante de todos, de forma que a sua insensatez fique patente. Quem ajunta riquezas por meios errados acabará como insensato (Jeremias 17:11). Mas, enquanto prospera, pode ser tido como homem sábio, até que Deus diga: “Louco, esta noite te pedirão a tua alma” (Lucas 12:20).

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