Versículo em destaque
Jó 17:1 - Significado e aplicação
Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje
Tradução: Almeida Corrigida Fiel
" O meu espírito se vai consumindo, os meus dias se vão apagando, e só tenho perante mim a sepultura. "
Jó 17:1
Versículo no contexto
Entender os versículos ao redor evita interpretações incorretas:
1 O meu espírito se vai consumindo, os meus dias se vão apagando, e só tenho perante mim a sepultura.
2 Deveras estou cercado de zombadores, e os meus olhos contemplam as suas provocações.
3 Promete agora, e dá-me um fiador para contigo; quem há que me dê a mão?
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O discurso de Jó aqui é um tanto entrecortado e interrompido. Ele passa de repente de um pensamento a outro, como muitas vezes acontece com pessoas muito atribuladas. Ainda assim, é possível reunir o que ele diz em alguns pontos principais. Ele descreve sua condição triste, mostra como os amigos usam essa miséria contra ele e recorre deles para Deus.
Jó começa declarando que é um homem moribundo (Jó 17:1). Em (Jó 16:22) ele havia dito que, passados poucos anos, seguiria naquela longa jornada. Aqui ele se corrige, como se dissesse: “Por que falar em anos? Eu já estou partindo agora.” Seu fôlego está quase acabando, suas forças se exauriram, e ele se sente pronto para partir. É sábio que todos nós pensemos em nós mesmos como morrendo, especialmente quando estamos enfermos.
Estamos morrendo de vários modos. Nossa vida se vai porque o sopro de vida se vai. Ele continua saindo de nós, e o corpo é apenas sua morada passageira. A doença de Jó pode ter tornado a respiração difícil para ele, e o fôlego curto pode facilmente se tornar falta total de fôlego. Que o Ungido do Senhor seja o sopro de nossas narinas, e peçamos a ele a vida espiritual. Essa vida jamais se corromperá.
Também estamos morrendo porque nosso tempo está se esgotando. Jó diz: “Os meus dias se vão apagando”, como um pavio de vela que vai se consumindo. Desde o momento em que a vela é acesa, ela começa a gastar‑se até se apagar, ainda que muitas coisas possam fazê‑la apagar‑se antes. Assim é a vida. Por isso devemos usar bem nossos dias e gastá‑los preparando‑nos para a eternidade, que nunca terá fim.
Além disso, somos esperados em nossa “longa morada”, a sepultura. Jó diz: “Só tenho perante mim a sepultura.” Ele fala do lugar de sepultamento de seus pais, onde ele também seria reunido. Para onde quer que vamos, a sepultura está apenas a um passo. Se a sepultura está pronta para nós, então devemos estar prontos para a sepultura. As palavras de Jó também mostram que ele anseia pela morte. Ele já se despediu do mundo e enxerga apenas a sepultura adiante.
Jó também é um homem desprezado (Jó 17:6). Ele diz que Deus o fez um provérbio entre o povo, algo de que todos falam e zombam. Antes, ele havia sido como um tambor ou tamborim, de que os outros tiravam som à vontade; isto é, ele já fora um prazer para os outros, mas agora é o motivo de seu riso. Isso frequentemente acontece com aqueles que foram honrados na riqueza, mas são desprezados na pobreza.
Ele é também um homem de dores (Jó 17:7). Chorou tanto que sua vista se escureceu. A tristeza o consumiu a tal ponto que ele é pouco mais do que pele e osso. Sente‑se como uma sombra de homem, nem sequer como um ser humano completo.
Agora Jó volta‑se para o mal que seus amigos lhe fizeram. Eles o pisotearam, zombaram dele e o trataram como hipócrita justamente por sofrer tão profundamente. Isso é um tratamento cruel. Ele diz que eles o maltrataram com palavras duras e com consolos falsos. Fingem ser amigos, mas na verdade o ferem na sua própria presença. Ele não consegue livrar‑se deles, e eles não cessam, mesmo quando a razão e a compaixão deveriam detê‑los.
Ele também diz que o enganaram com belas promessas. Deram‑lhe conselhos, fizeram‑no esperar coisas boas, mas agora ele vê tais palavras como lisonja vazia. Vieram como pranteadores, e Elifaz até começou louvando‑o em (Jó 4:3), mas Jó sente que tudo aquilo foi usado para feri‑lo ainda mais fundo. Eles o provocaram e depois o culparam por reagir. Ele se sente justificado em seu lamento, porque a provocação deles nunca cessou.
Jó afirma que esse comportamento mostra que Deus escondeu dos amigos o entendimento (Jó 17:4). Nesse assunto, eles se tornaram insensatos, e a sabedoria que costumavam ter os abandonou. A sabedoria é dom de Deus, que a concede a uns e a retém de outros, e até em tempos diferentes da vida da mesma pessoa. Os que não demonstram compaixão mostram com isso que lhes falta entendimento. Quando alguém não tem ternura, é legítimo questionar se possui verdadeiro bom senso.
Jó também declara que a conduta deles lhes trará vergonha duradoura. Deus não honrará quem tem o coração encoberto de entendimento. Quando Deus permite que os homens se tornem tolos, também os abate. Aqueles que tão pouco compreendem os caminhos de Deus não são as pessoas certas para decidir essa controvérsia. Esse lugar pertence a uma mente melhor e mais calma, como Eliú mais tarde demonstrou.
Ele acrescenta que esse mal alcançará também as famílias deles. Se um homem rompe o santo vínculo da amizade, perde o bem que ela traria para si e para os seus filhos. Até os filhos desses homens buscarão em vão auxílio e consolo entre amigos, assim como Jó buscou em vão nesses três. Os que prejudicam o próximo podem acabar prejudicando seus próprios filhos mais do que imaginam.
Por fim, Jó recorre de seus amigos a Deus (Jó 17:3). “Põe‑me junto a ti em penhor” quer dizer: “Que Deus tome esta causa em suas próprias mãos, e isso me basta.” Ele deseja alguém que garanta que Deus ouvirá e decidirá a questão. Dessa forma, aqueles cujo coração não os condena ainda podem chegar diante de Deus com humilde confiança. Podem pedir que ele os sonde e prove, confiando que julgará com justiça.
Alguns entendem que aqui Jó aponta para a mediação de Cristo, porque fala de um fiador junto a Deus. Sem tal auxílio, ele não ousaria chegar a Deus nem defender sua causa em seu tribunal. Mesmo que as acusações de seus amigos fossem completamente falsas, Jó não poderia justificar‑se diante de Deus a não ser por meio de um mediador, isto é, alguém que se coloca entre as duas partes e intercede.
O sentido do versículo pode ser assim expresso: “Designa, rogo‑te, o meu fiador junto a ti, isto é, Cristo, que está contigo nos céus e assumiu a responsabilidade por mim. Que ele defenda a minha causa e se levante por mim. E então, quem haverá que bata na minha mão?” Em outras palavras, quem ousaria contender comigo ou apresentar acusação contra mim, se Cristo é meu advogado? Isso se harmoniza com (Romanos 8:32‑33). Cristo é o fiador, o que garante a aliança, da melhor aliança (Hebreus 7:22), constituído por Deus. Se ele assume a nossa causa, não precisamos temer o que se possa fazer contra nós.
O bom proveito que os justos devem tirar dos sofrimentos de Jó, vindos de Deus, dos inimigos e dos amigos, aparece em (Jó 17:8‑9). Primeiro, note‑se como os santos são descritos. São retos, honestos e sinceros, agindo a partir de um coração firme, com um único propósito. Esse era o próprio caráter de Jó (Jó 1:1), e ele provavelmente pensa de modo especial em pessoas retas que haviam sido seus amigos e companheiros.
Eles também são inocentes, não perfeitamente inocentes, mas pessoas que têm a inocência como alvo e caminham em direção a ela. A fé sincera é a inocência do evangelho, isto é, o tipo de integridade que o evangelho produz em uma pessoa. Os retos são chamados de inocentes da grande transgressão (Salmo 19:13). São os justos, que andam no caminho da justiça. Têm também mãos limpas, guardadas das manchas abertas do pecado e, quando são tocados por fraquezas humanas, lavam‑se na inocência (Salmo 26:6).
Consideremos agora como tais pessoas deveriam reagir ao ouvir das aflições de Jó. Com certeza, perguntariam por ele, e todos comentariam seu caso. Qual conclusão as pessoas piedosas deveriam tirar? De um lado, isso as espantará. Os retos ficarão admirados que um homem tão bom quanto Jó possa sofrer tanto no corpo, na reputação e nos bens. Maravilhar‑se‑ão de que Deus pese a mão tão fortemente sobre ele, de que seus amigos, que deviam consolá‑lo, só acrescentem tristeza, e de que um servo de Deus tão notável seja posto de lado no meio de sua utilidade. O que dizer de coisas assim? Mesmo convictos de que Deus é sábio e santo em tudo o que faz, não podem deixar de ficar admirados com essas obras da providência, esses enigmas que só ficarão claros quando o propósito de Deus for plenamente revelado.
De outro lado, os sofrimentos de Jó os encorajarão. Em vez de se desanimarem de servir a Deus por causa do tratamento duro que esse servo fiel recebeu, serão ainda mais ousados em continuar e perseverar. Essa era a preocupação de Paulo, que nenhum justo fosse abalado na santidade ou no consolo por causa de tais aflições (1 Tessalonicenses 3:3). E também era o seu consolo saber que os irmãos no Senhor se tornariam mais audazes por causa de suas prisões (Filipenses 1:14).
Eles serão encorajados, em primeiro lugar, a se opor ao pecado e a rejeitar as conclusões erradas que os ímpios tiram dos sofrimentos de Jó, como a ideia de que Deus abandonou o mundo ou de que é inútil servi-lo. O inocente se levantará contra o hipócrita e não aceitará tais afirmações (Apocalipse 2:2). Ele permanecerá firme contra elas, procurará entender o sentido de tais providências e enfrentará essas questões difíceis até compreendê‑las com clareza. Também defenderá a fé, que é justa, ainda que muitas vezes seja injustamente atacada. Os ataques ousados dos ímpios devem tornar os amigos da verdadeira religião mais corajosos e determinados. Quando soa a trombeta no acampamento: “Quem está do lado do Senhor?”, é hora de agir. Quando o mal é ousado, a virtude não deve se esconder por medo.
Em segundo lugar, eles serão encorajados a continuar andando no caminho da fé. O justo não vai retroceder, nem mesmo parar em dúvida, diante de um quadro tão assustador. Ele seguirá adiante com maior firmeza e resolução. Como Paulo, seguirá seu caminho mesmo sabendo que cadeias e aflições o esperam, e nada disso o fará recuar (Atos 20:24). Aqueles que mantêm os olhos fixos no céu como seu alvo conservarão os pés na vereda da piedade, sejam quais forem as dificuldades e desânimos que encontrem.
Em terceiro lugar, isso os levará a crescer na graça, isto é, em santidade e força espiritual. Eles não apenas continuarão, mas se tornarão cada vez mais fortes. Ao verem outros servos de Deus sendo provados e por meio de suas próprias experiências, ficarão mais vivos no cumprimento do dever, mais calorosos nos afetos, mais resolutos e menos temerosos. Quanto piores forem os outros, melhores eles se tornarão. Aquilo que assusta a muitos os tornará mais ousados. Um vento forte leva o viajante a apertar o manto mais junto ao corpo e a prendê‑lo com mais firmeza. Assim, os que são verdadeiramente sábios e piedosos continuarão crescendo em sabedoria e bondade. Progredir na vida com Deus é um bom sinal de que a pessoa é sincera na fé.
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Deste capítulo
Jó 17:2
"Deveras estou cercado de zombadores, e os meus olhos contemplam as suas provocações."
Jó 17:3
"Promete agora, e dá-me um fiador para contigo; quem há que me dê a mão?"
Jó 17:4
"Porque aos seus corações encobriste o entendimento, por isso não os exaltarás."
Jó 17:5
"O que denuncia os seus amigos, a fim de serem despojados, também os olhos de seus filhos desfalecerão."
Jó 17:6
"Porém a mim me pôs por um provérbio dos povos, de modo que me tornei uma abominação para eles."
Jó 17:7
"Pelo que já se escureceram de mágoa os meus olhos, e já todos os meus membros são como a sombra."
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