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Ezequiel 47:1 - Significado e aplicação
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Tradução: Almeida Corrigida Fiel
" Depois disto me fez voltar à porta da casa, e eis que saíam águas por debaixo do umbral da casa para o oriente; porque a face da casa dava para o oriente, e as águas desciam de debaixo, desde o lado direito da casa, ao sul do altar. "
Ezequiel 47:1
Versículo no contexto
Entender os versículos ao redor evita interpretações incorretas:
1 Depois disto me fez voltar à porta da casa, e eis que saíam águas por debaixo do umbral da casa para o oriente; porque a face da casa dava para o oriente, e as águas desciam de debaixo, desde o lado direito da casa, ao sul do altar.
2 E ele me fez sair pelo caminho da porta do norte, e me fez dar uma volta pelo caminho de fora, até à porta exterior, pelo caminho que dá para o oriente e eis que corriam as águas do lado direito.
3 E saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; e mediu mil côvados, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos artelhos.
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Esta parte da visão de Ezequiel precisa ter um sentido espiritual; por isso devemos esperar que o restante da visão também o tenha. Não pode tratar apenas da água usada no templo para lavar os sacrifícios, limpar o templo e levar embora os resíduos, pois isso rebaixaria esse belo rio a algo como um esgoto. Zacarias ajuda a entender, quando fala de águas vivas que sairão de Jerusalém, metade para o mar oriental e metade para o mar ocidental (Zacarias 14:8). João também parece apontar para isso quando, em sua visão, vê um rio puro da água da vida (Apocalipse 22:1).
Essa figura em Apocalipse mostra a glória e a alegria quando a graça estiver plenamente consumada. Já o rio de Ezequiel mostra a graça e a alegria que começaram, desde agora, a participar dessa glória. A maior parte dos intérpretes entende que essas águas representam o evangelho de Cristo, que saiu de Jerusalém e se espalhou pelas terras em redor. Representam também os dons e o poder do Espírito Santo, que acompanharam o evangelho, ajudando-o a se difundir amplamente e a operar bênçãos admiráveis.
Ezequiel já tinha andado muitas vezes ao redor da casa, mas só agora percebe essas águas. Deus não revela a sua vontade de uma vez, mas pouco a pouco. A primeira coisa a notar é a origem das águas. Ezequiel não é mandado voltar o curso do riacho até a fonte; em vez disso, a própria nascente lhe é mostrada primeiro: águas saíam de debaixo do umbral da casa para o oriente e de debaixo do lado direito da casa, isto é, do lado sul do altar (Ezequiel 47:1). Outra vez se diz que as águas corriam do lado direito (Ezequiel 47:2). Isso indica que de Sião sairia a lei, e de Jerusalém a palavra do Senhor (Isaías 2:3).
Foi ali que o Espírito Santo foi derramado sobre os apóstolos, dando-lhes o dom de línguas, para que pudessem levar essas águas a todas as nações. No templo, primeiro deveriam estar em pé e anunciar as palavras desta vida (Atos 5:20). Tinham de pregar o evangelho a todas as nações, mas deviam começar por Jerusalém (Lucas 24:47). Porém há mais. Cristo é o templo, e ele é a porta. Dele procedem essas águas vivas, do seu lado traspassado. A água que ele dá se torna em nós uma fonte que jorra para a vida eterna (João 4:14). E, quando cremos nele, rios de água viva fluem do nosso interior; e isto ele disse a respeito do Espírito (João 7:38–39).
A fonte dessas águas não estava acima do solo, mas debaixo do umbral. Isso lembra que a nascente da vida do crente é um mistério, escondida com Cristo em Deus (Colossenses 3:3). Alguns observam que as águas vinham do lado direito da casa, para mostrar que as bênçãos do evangelho são bênçãos da mão direita, isto é, de favor e de honra. Isso anima os que esperam às portas da Sabedoria e permanecem às portas da casa de Deus, dispostos até a ficar ao limiar como Davi. Estão exatamente junto à nascente do consolo e da graça. Até a entrada das palavras de Deus traz luz e vida (Salmo 119:130). Davi louvou Sião dizendo: “Todas as minhas fontes estão em ti” (Salmo 87:7).
As águas vinham do lado do altar, porque é em Cristo Jesus e por meio dele, o grande altar que torna aceitáveis a Deus as nossas ofertas, que o Senhor nos abençoa com bênçãos espirituais nas regiões celestiais. De Deus, como fonte, e em Cristo, como canal, flui o rio que alegra a cidade de Deus, o lugar santo da morada do Altíssimo (Salmo 46:4). No entanto, a alegria dos santos glorificados no céu ultrapassa de longe a alegria dos melhores santos na terra. Aqui, nossos ribeiros de consolo brotam de debaixo do umbral; lá, saem diretamente do trono de Deus e do Cordeiro (Apocalipse 22:1).
A segunda coisa a notar é o crescimento do rio. Ele corre para o oriente (Ezequiel 47:3), para a terra oriental (Ezequiel 47:8), seguindo a direção que lhe é dada. O profeta e seu guia acompanham o curso da água, descendo das santas montanhas. Depois de cerca de mil côvados, atravessam o riacho para provar-lhe a profundidade, e a água dava pelos artelhos (Ezequiel 47:3). Andam mais mil côvados e o atravessam de novo, e agora a água lhes dá pelos joelhos (Ezequiel 47:4). Andam mais mil côvados, e a água chega aos lombos. Depois de outro milhar de côvados, tentam atravessar outra vez, mas já não conseguem. A água havia subido, quer por afluentes na superfície, quer por mananciais subterrâneos, até tornar-se um rio em que se podia nadar e que não se podia mais passar a pé (Ezequiel 47:5).
Essas águas do santuário são águas correntes, como um rio, não águas paradas, como um tanque. O evangelho, quando começou a ser anunciado, foi se espalhando cada vez mais. A graça na alma também segue adiante; é ativa, sempre prosseguindo para a perfeição. São igualmente águas que aumentam. O rio continua correndo, e, quanto mais avança, mais cheio se torna. A igreja do evangelho teve um começo muito pequeno, como um filete de água, mas pouco a pouco foi chegando aos artelhos e depois aos joelhos. Muitos eram acrescentados dia a dia, e a semente de mostarda cresceu até se tornar grande árvore.
Os dons do Espírito crescem à medida que são usados, e a verdadeira graça também cresce, como a luz da manhã, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. É bom seguir essas águas e ir com elas. Devemos observar a expansão do evangelho no mundo e também observar a obra da graça em nosso coração. Precisamos prestar atenção aos movimentos do bendito Espírito e andar após eles, sob orientação divina, como Ezequiel fez aqui. É bom também continuar investigando as coisas de Deus e provando-lhes a profundidade, não ficando apenas na superfície dessas águas, mas indo o mais fundo que pudermos.
Ao pesquisar as coisas de Deus, encontraremos algumas muito claras, como água só até os artelhos. Outras serão mais difíceis e exigir mais aprofundamento, como água até os joelhos ou até os lombos. E haverá coisas além do nosso alcance: não conseguimos compreendê-las ou explicá-las plenamente. Então, como Paulo, devemos assentar-nos à margem e adorar a profundidade da sabedoria de Deus (Romanos 11:33). Muitos já disseram que, nas Escrituras, como nessas águas do santuário, há lugares tão rasos que um cordeirinho pode atravessar, e outros tão profundos que um elefante pode nadar.
Por isso é sábio, como o profeta fez, começar pelo que é mais fácil de entender, deixando que nosso coração seja lavado por essas verdades antes de avançar para o que é escuro e difícil. É bom tomar nosso trabalho em ordem.
O alcance desse rio é amplo. Ele corre para a terra do oriente, mas depois parece dividir-se em vários braços, ou então se encurva, descendo para o deserto e, dali, para o mar, seja o mar Morto, ao sudeste, seja o mar de Tiberíades, ao nordeste, seja o grande mar, a oeste (Ezequiel 47:8). Isso se cumpriu quando o evangelho se espalhou com êxito por toda a Judeia e Samaria (Atos 8:1), e depois pelas nações em redor, até mesmo a ilhas distantes. Sua mensagem chegou aos confins da terra, e seus inimigos não puderam deter o seu avanço, mais do que podem deter um grande rio.
O rio também mostra o poder curador das águas do santuário. Onde quer que essas águas corram livremente, trazem vida e restauração. Até quando entram no mar, naquele lago sulfuroso de Sodoma, sinal permanente do juízo divino, suas águas são saradas e se tornam doces, agradáveis e saudáveis (Ezequiel 47:8). Isso aponta para a maravilhosa transformação que o evangelho produz onde chega em poder, grande mudança tanto de caráter como de condição, como se o mar Morto se tornasse um lugar cheio de jardins. Quando pessoas que eram filhos da ira passam a ser filhos do amor, e os que estavam mortos em delitos e pecados são vivificados, essa figura se cumpre.
O evangelho é como o sal que Eliseu lançou na fonte de Jericó, quando sarou aquelas águas (2 Reis 2:20–21). Cristo veio ao mundo como médico, e enviou o evangelho como o grande remédio, eficaz contra toda espécie de enfermidade. Onde quer que esses rios cheguem, fazem viver (Ezequiel 47:9). Plantas e animais florescem ali, porque se trata da água da vida (Apocalipse 22:1, Apocalipse 22:17). Cristo veio para que tivéssemos vida, e por isso envia o seu evangelho. Tudo viverá por onde passar esse rio. A graça de Deus vivifica pecadores mortos e torna crentes vivos frutíferos e ativos.
Mas o efeito dessas águas depende de como são recebidas e do estado do coração. Quanto aos pântanos e charcos, que ficam assentados na lama do próprio pecado e recusam ser curados, ou se acomodam na umidade da própria justiça e pensam que não precisam de cura, sua sentença é esta: não serão sarados (Ezequiel 47:11). O mesmo evangelho que é cheiro suave de vida para uns será cheiro de morte para outros. Serão entregues ao sal, à esterilidade duradoura (Deuteronômio 29:23). Os que se recusam a ser regados pela graça de Deus e a tornar-se frutíferos serão deixados aos próprios desejos pecaminosos e permanecerão estéreis para sempre. Que o sujo permaneça sujo ainda. Nunca mais nasça fruto de ti. Serão entregues ao sal, isto é, servirão de advertência da justiça divina, como a mulher de Ló, que se tornou uma estátua de sal para ensinar aos outros.
Haverá também grande abundância de peixes nesse rio. Toda criatura vivente estará ali, viverá ali, prosperará e se multiplicará grandemente (Ezequiel 47:9). Haverá muitíssimos peixes, de toda espécie, como os peixes do grande mar, em número incontável. Assim haverá grande multidão de cristãos na igreja, multiplicando-se como peixes nas gerações seguintes, cheios de vigor juvenil. Na criação, as águas produziram abundância de peixes (Gênesis 1:20-21), e os peixes ainda vivem nas águas e pelas águas que os geraram. Do mesmo modo, os crentes nascem pela palavra da verdade (Tiago 1:18) e pela palavra viva de Deus (1 Pedro 1:23). Essa palavra é como o rio de Deus. Eles vivem por meio dela, e dela recebem força e sustento. Nas águas do santuário estão em seu verdadeiro ambiente. Fora delas, são como peixes em terra seca, como Davi, quando tinha sede e suspirava por Deus, pelo Deus vivo.
Onde se sabe que há muitos peixes, ali se ajuntam pescadores e lançam suas redes. Assim, para mostrar que essas águas serão cheias e úteis em todo sentido, a visão diz que os pescadores estarão à beira desse rio, desde En-Gedi, na margem do mar Morto, até En-Eglaim, outra cidade que também faz fronteira com aquele mar, e por todo aquele trecho estenderão as suas redes. O mar Morto, antes evitado como algo impuro e prejudicial, será frequentado. A graça do evangelho torna úteis, para Deus e para os outros, pessoas e lugares que antes eram inúteis.
Há também muitas árvores em ambas as margens do rio (Ezequiel 47:7), o que torna o cenário agradável e oferece sombra que ajuda na pescaria. Mas não é só isso (Ezequiel 47:12). São árvores frutíferas, e o seu fruto não falhará, pois darão frutos novos todos os meses. Suas folhas servirão de remédio, e não murcharão. Essa parte da visão é retomada de modo muito próximo na visão de João (Apocalipse 22:2), onde a árvore da vida cresce de ambos os lados do rio, dá fruto todo mês e tem folhas para a cura das nações. Os cristãos devem ser como essas árvores, sobretudo os ministros, como árvores de justiça, plantadas pelo Senhor (Isaías 61:3), firmadas junto às águas do santuário, as águas da vida (Salmo 1:3), enxertadas em Cristo, a árvore da vida, e, pela união com ele, feitas também árvores de vida, enraizadas nele (Colossenses 2:7).
Há grande variedade entre essas árvores porque o único Espírito concede diferentes dons e opera tudo em todos. Elas crescem à beira do rio, isto é, permanecem próximas das santas ordenanças, e por meio delas extraem de Cristo vida e vigor. São árvores frutíferas, destinadas, como a figueira e a oliveira, a honrar a Deus e aos homens com o seu fruto (Juízes 9:9). Seu fruto é para alimento, pois os lábios do justo apascentam a muitos. O fruto de sua justiça é proveitoso de uma forma ou de outra. Até as suas folhas servem de remédio, para contusões e feridas. Bons cristãos, por suas boas palavras, que são como folhas, e por seus atos de caridade, que são como fruto, fazem bem aos que os cercam. Fortalecem os fracos e ligam os que têm o coração quebrantado. Seu ânimo alegre faz bem como remédio, não só para si mesmos, mas também para os outros.
Deus lhes dará graça para perseverar no que é bom e útil. Suas folhas não murcharão nem perderão o poder de curar, porque há vida em suas raízes e seiva em todos os seus ramos. Sua profissão de fé não secará (Salmo 1:3), e o seu fruto não será esgotado. Em outras palavras, não perderão a capacidade de frutificar, mas continuarão a produzir até na velhice, mostrando que o Senhor é reto (Salmo 92:14; Salmo 92:15).
A recompensa dessa fecundidade durará para sempre. Produzirão fruto que será levado em conta naquele grande dia, fruto que conduz à vida eterna. Esse é realmente um fruto que não será consumido. Darão frutos novos a cada mês, uns em determinado tempo e outros em outro, de modo que sempre haverá alguém pronto para servir à glória de Deus da forma que ele quiser.
Ou o sentido pode ser que cada árvore dê fruto todos os meses, o que mostra grande prontidão para frutificar: nunca se cansarão de fazer o bem. Isso também aponta para um clima muito favorável, em que é sempre primavera e verão. A razão dessa extraordinária fecundidade é que suas águas saem do santuário. Não é por algo que haja nelas mesmas, mas pelos contínuos suprimentos da graça divina, com que são regadas a cada momento (Isaías 27:3). Quem quer que as tenha plantado, foi isso que fez crescer.
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Deste capítulo
Ezequiel 47:2
"E ele me fez sair pelo caminho da porta do norte, e me fez dar uma volta pelo caminho de fora, até à porta exterior, pelo caminho que dá para o oriente e eis que corriam as águas do lado direito."
Ezequiel 47:3
"E saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; e mediu mil côvados, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos artelhos."
Ezequiel 47:4
"E mediu mais mil côvados, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos joelhos; e outra vez mediu mil, e me fez passar pelas águas que me davam pelos lombos."
Ezequiel 47:5
"E mediu mais mil, e era um rio, que eu não podia atravessar, porque as águas eram profundas, águas que se deviam passar a nado, rio pelo qual não se podia passar."
Ezequiel 47:6
"E disse-me: Viste isto, filho do homem? Então levou-me, e me fez voltar para a margem do rio."
Ezequiel 47:7
"E, tendo eu voltado, eis que à margem do rio havia uma grande abundância de árvores, de um e de outro lado."
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