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Romanos 1:19 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro

" Pois o que se pode conhecer de Deus eles leem em si mesmos, porque Deus lhes revelou isso com evidência. "

Romanos 1:19

menu_book Versículo no contexto

17 Porque nele se revela a justiça de Deus, que se obtém pela fé e conduz à fé, como está escrito: O justo viverá pela fé.

18 A ira de Deus se manifesta do alto do céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a verdade.

19 Pois o que se pode conhecer de Deus eles leem em si mesmos, porque Deus lhes revelou isso com evidência.

20 Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, seu poder sempiterno e sua divindade, tornam-se visíveis à inteligência por meio de suas obras, de modo que eles não podem se desculpar.

21 Porque, embora conhecessem a Deus, não o glorificaram como Deus nem lhe deram graças. Pelo contrário, perderam-se em seus pensamentos vãos, e o coração insensato deles se obscureceu.

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auto_stories Comentário Bible Guided

Na última parte deste capítulo, o apóstolo aplica o que disse de modo especial ao mundo gentílico. Primeiro, vemos que meios e auxílios eles tinham para chegar ao conhecimento de Deus. Eles não possuíam o conhecimento da lei de Deus como Jacó e Israel possuíam (Salmo 147:20), mas Deus não se deixou a si mesmo sem testemunho entre eles (Atos 14:17). Paulo afirma que o que de Deus se pode conhecer foi tornado manifesto a eles.

Eles tinham um conhecimento real de Deus. Mesmo entre os gentios, alguns sabiam que existia um Ser divino supremo. Os escritos de filósofos como Pitágoras, Platão e os estóicos mostram isso em muitos lugares. Mas Paulo diz apenas que aquilo que pode ser conhecido de Deus lhes foi manifestado, o que significa que há muito que não podemos conhecer. Podemos compreender que Deus existe, mas não podemos compreendê-lo plenamente. Ninguém pode sondá-lo por investigação própria (Jó 11:7-9). A mente humana é limitada, mas bendito seja Deus, há revelação suficiente para nos conduzir ao nosso principal propósito, que é glorificar a Deus e gozá-lo. As coisas encobertas pertencem a Deus, mas as reveladas pertencem a nós e a nossos filhos (Deuteronômio 29:29).

De onde vieram essas descobertas? O próprio Deus as mostrou aos homens. Aqueles pensamentos comuns acerca de Deus foram plantados no coração humano pelo Deus da natureza, o Pai das luzes. A percepção de que há um Deus e de que temos o dever de honrá-lo é tão natural ao ser humano que alguns já disseram que isso nos distingue dos animais ainda mais do que a própria razão.

Essas verdades foram confirmadas e fortalecidas pela criação. Paulo diz que as coisas invisíveis de Deus, especialmente seu eterno poder e sua divindade, são claramente vistas por meio das coisas que foram criadas (Romanos 1:20). Deus não pode ser visto com os olhos, mas se dá a conhecer pelas coisas visíveis. Seu poder e sua natureza divina são invisíveis, mas se manifestam claramente em seus efeitos. Ele opera em segredo (Jó 23:8-9; Salmo 139:15; Eclesiastes 11:5), mas o que ele fez mostra seu poder e sua divindade, assim como outras qualidades que a luz natural pode perceber a partir da ideia de Deus.

Pela natureza eles não podiam aprender que Deus é três pessoas em um só ser, embora alguns imaginem encontrar indícios disso nos escritos de Platão. Mas aprenderam o suficiente sobre Deus para serem impedidos da idolatria. Essa foi a verdade que eles detiveram na injustiça. Eles possuíam a verdade, mas a sufocaram pelo seu pecado.

Eles sabiam disso pelas coisas que foram criadas, porque as criaturas não poderiam ter feito a si mesmas. Também não poderiam ter chegado a tanta ordem e harmonia por acaso. Portanto, deve existir uma causa primeira, um Criador inteligente, e essa causa primeira só pode ser um Deus eterno e poderoso. Como a Escritura diz, os céus declaram a glória de Deus (Salmo 19:1), e as obras de Deus o manifestam (Isaías 40:26; Atos 17:24). O artífice é conhecido por sua obra. A variedade, o número, a ordem, a beleza, a harmonia, a diversidade de espécies e o sábio desígnio das criaturas, junto com o modo como cada parte serve a um propósito e contribui para o bem do conjunto, tudo isso prova a existência de um Criador e de seu eterno poder e divindade.

Essa luz brilhou nas trevas desde a criação do mundo. Isso pode ser entendido de duas maneiras. Primeiro, a criação é a fonte de onde esse conhecimento é extraído. Para demonstrar essa verdade, apontamos para a grande obra da criação. Alguns entendem que a expressão possa se referir de modo especial ao homem, a criatura mais admirável do mundo inferior. A estrutura do corpo humano e, sobretudo, as faculdades superiores da alma humana provam claramente que há um Criador e que ele é Deus. Segundo, pode significar que esse conhecimento existe desde a criação do mundo. Esse é o sentido mais comum dessa expressão na Escritura. Essas verdades sobre Deus não são descobertas recentes. São verdades antigas, conhecidas desde o princípio. O modo correto de reconhecer a Deus é o modo antigo, e veio primeiro. A verdade existiu antes do erro.

Em segundo lugar, Paulo mostra a grosseira idolatria deles, embora Deus lhes tivesse dado esse conhecimento de si mesmo (Romanos 1:21-23, 25). Não deve causar estranheza que o conhecimento natural não tenha preservado os gentios da idolatria, quando até os judeus, que tinham a luz da Escritura, eram tão inclinados a ela. O ser humano caído afunda-se facilmente no lodo dos sentidos.

A causa interior da idolatria deles é esta: eles são indesculpáveis. Conheceram a Deus, e a partir do que sabiam poderiam facilmente ter concluído que deviam adorá-lo, e somente a ele. Ainda que alguns tenham mais luz e mais auxílios do que outros, todos têm luz suficiente para ficarem sem desculpa. O problema é que não o glorificaram como Deus. Seu amor, temor e reverência não acompanharam o seu conhecimento. Glorificar a Deus como Deus significa honrá-lo somente a ele, pois só pode haver um Ser infinito. Mas eles não fizeram isso, pois instituíram muitos outros deuses. Glorificar a Deus como Deus também significa adorá-lo de maneira espiritual, mas eles fizeram imagens dele. Se não glorificamos a Deus como Deus, na prática não o glorificamos de modo algum. Tratá-lo como se fosse apenas uma criatura é desonrá-lo.

Eles também não foram agradecidos. Não foram gratos pelas bênçãos que receberam de Deus em geral, pois o esquecimento das misericórdias de Deus está na raiz de nossa afastada apostasia. Também não foram gratos pelo conhecimento que Deus lhes deu de si mesmo em particular. Aqueles que não fazem bom uso da luz e da graça que recebem são, com justiça, chamados de ingratos por elas.

Em vez disso, tornaram-se vãos em seus raciocínios, em suas conclusões práticas. Possuíam muito conhecimento de verdades gerais (Romanos 1:19), mas lhes faltava sabedoria para aplicar essas verdades a casos concretos. Ou isso pode se referir às suas ideias sobre Deus, sobre a criação, sobre a origem da humanidade e sobre o bem supremo, a felicidade máxima. Uma vez abandonada a verdade clara, logo se deixaram levar para muitos pensamentos vazios e tolos. As numerosas opiniões das diversas escolas de filósofos eram exemplos desse raciocínio vão. Quando a verdade é abandonada, o erro se multiplica sem limites.

Seu coração insensato foi entenebrecido. A insensatez e as escolhas pecaminosas do coração obscurecem e escurecem a mente. Nada cega e distorce tanto o entendimento quanto uma vontade e desejos corrompidos. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos (Romanos 1:22).

Isso recai especialmente sobre os filósofos, que se diziam sábios e mestres de sabedoria. Quanto mais suas imaginações se exaltavam ao tentar conceber Deus, mais caíam em ideias grosseiras e absurdas. Isso foi um justo castigo para seu orgulho e presunção. Freqüentemente se observa que as nações de cultura mais refinada e de maiores pretensões de sabedoria eram, muitas vezes, as mais tolas em matéria de religião.

Os bárbaros adoravam o sol e a lua, que eram ídolos mais impressionantes. Os eruditos egípcios adoravam um boi e até uma cebola. Os gregos, tidos por mais sábios, adoravam doenças e paixões humanas. Os romanos, considerados os mais sábios de todos, adoravam as Fúrias, espíritos de vingança. Assim, o mundo, por sua própria sabedoria, não conheceu a Deus (1 Coríntios 1:21). A pretensão de sabedoria torna a loucura ainda pior, e uma confiança orgulhosa em sua própria sabedoria produz muito erro. Por isso poucos filósofos se converteram ao cristianismo, e a pregação de Paulo foi mais zombada justamente entre os cultos atenienses (Atos 17:18-32).

Eles se julgavam sábios, mas a verdade simples acerca de Deus não os satisfazia. Achavam-se acima disso e, assim, caíram nos erros mais profundos.

Em seguida, vem a forma exterior da idolatria deles (Romanos 1:23-25). Primeiro, fizeram imagens de Deus (Romanos 1:23). Fazendo isso, mudaram, na medida do possível, a glória do Deus incorruptível. Compare com (Salmo 106:20) e (Jeremias 2:11). Atribuíram honra divina às criaturas mais desprezíveis e as usaram para representar Deus. Foi grande honra para o homem ter sido criado à imagem de Deus, mas é grande insulto a Deus ser feito à imagem do homem. Deus havia advertido rigorosamente os judeus contra isso (Deuteronômio 4:15 e seguintes), e Paulo depois demonstrou a loucura dessa prática em seu sermão em Atenas (Atos 17:29). Veja também (Isaías 40:18 e seguintes) e (Isaías 44:10 e seguintes).

Isso é chamado de mudar a verdade de Deus em mentira (Romanos 1:25). Isso desonrou a glória de Deus e também apresentou uma falsa imagem de sua natureza. Os ídolos são chamados de mentiras porque representam Deus falsamente, como se ele tivesse corpo, quando é Espírito (Jeremias 23:14; Oséias 7:1). Eles são mestres de mentira (Habacuque 2:18).

Em segundo lugar, eles deram honra divina à criação em vez de ao Criador. Adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador. Até admitiam, em palavras, que havia um Deus supremo, mas, na prática, o negavam pelo culto que prestavam às coisas criadas. Deus exige toda a honra, ou nenhuma. Ou, se quisermos colocar de outra forma, eles honraram a criatura acima do Criador, dando respeito mais devotado a deuses menores, astros, heróis e demônios. Imaginavam que o Deus supremo era distante demais, elevado demais, para ser adorado por eles.

O pecado deles estava em adorar a criatura de qualquer modo; mas Paulo acrescenta esse detalhe para mostrar a gravidade: adoraram a criatura mais do que o Criador. Esse era o pecado comum do mundo gentílico, entrelaçado até nas leis e na estrutura de governo. Por isso, mesmo alguns dos mais sábios entre eles, que sabiam que havia um só Deus supremo e percebiam a tolice de seus muitos deuses, ainda assim faziam o que todos faziam.

Sêneca, em seu livro Sobre a Superstição, citado por Agostinho, depois de descrever a grande tolice e o pecado da religião popular, disse: o homem sábio conservará tudo isso como algo exigido pela lei, não porque pense que os deuses se agradam disso. E ainda: adoraremos essa multidão inferior de deuses que a superstição antiga reuniu ao longo de muitos anos, lembrando que esse culto é mais questão de costume do que de verdadeira importância. Agostinho comentou com razão que ele adorava o que condenava, fazia o que havia provado ser errado e reverenciava o que censurava. Isso explica com clareza as palavras do apóstolo: “detêm a verdade em injustiça” (Romanos 1:18).

Vale notar também que, quando Paulo fala da desonra feita a Deus pela idolatria dos gentios, ele interrompe seu raciocínio para louvar a Deus: “o qual é bendito eternamente. Amém.” Ao vermos ou ouvirmos o nome de Deus ser insultado, devemos usar isso como motivo para pensar e falar bem dele. Nisso, como em outros pontos, quanto piores forem os outros, mais cuidadosos devemos ser. Ele é bendito eternamente, ainda que os homens o desonrem. Alguns não o glorificam, mas ele é glorificado e será glorificado para sempre.

Em terceiro lugar, considere-se os juízos de Deus sobre eles por causa dessa idolatria. Não se tratou tanto de castigos exteriores, pois as nações idólatras muitas vezes se tornaram potências dominadoras do mundo. Foram juízos espirituais: Deus os entregou às suas paixões vis e antinaturais. A expressão “Deus os entregou” é repetida três vezes aqui (Romanos 1:24; Romanos 1:26; Romanos 1:28). Juízos espirituais são os piores e os que mais devemos temer.

Note-se, primeiro, quem os entregou. Deus os entregou, em juízo justo, como punição adequada à idolatria deles. Ele retirou o freio de sua graça, deixou-os por conta de si mesmos, permitiu que seguissem o próprio caminho. A graça é dom exclusivo de Deus, e ele não a deve a ninguém. Pode concedê-la ou retê-la como lhe apraz. Se esse entregar-se é um ato direto de Deus ou apenas a retirada de sua graça, isso fica para debate dos estudiosos; mas uma coisa é certa: não é novidade que Deus entregue pessoas a seus próprios desejos pecaminosos, lhes envie fortes ilusões, permita a ação de Satanás e até ponha tropeços diante delas.

Ainda assim, Deus não é autor do pecado. Nisso ele é totalmente justo e santo. Ainda que disso resultem grandes maldades, a culpa pertence ao coração perverso do pecador. Se um paciente é teimoso, rejeita o tratamento oferecido e continua fazendo o que o prejudica, o médico não é culpado por, enfim, abandoná-lo como caso sem esperança. Os maus resultados que se seguem não vêm do médico, mas da doença e da insistência obstinada do próprio paciente.

Em segundo lugar, repare em para o que foram entregues. Foram entregues à imundícia e a paixões infames (Romanos 1:24; Romanos 1:26; Romanos 1:27). Os que não quiseram receber a luz mais pura da razão natural, que deveria tê-los ajudado a honrar a Deus, perderam justamente até as verdades mais evidentes que preservam a dignidade humana. Quando alguém desfruta de honra, mas se recusa a entender o Deus que o fez, desce mais baixo do que os animais que perecem (Salmo 49:20).

Assim, uma pessoa, com a permissão de Deus, torna-se instrumento de castigo para outra. Mas a culpa real está, como a passagem indica, nas concupiscências do coração deles. Os que desonraram a Deus foram entregues a desonrar a si mesmos. Ninguém é mais escravizado do que aquele que é deixado nas mãos de seus próprios desejos pecaminosos.

Pessoas assim são entregues, como os egípcios (Isaías 19:4), ao poder de um senhor cruel. Sua imundícia e paixões infames incluem desejos antinaturais. Muitos gentios, até homens tidos como sábios, como Sólon e Zenão, eram conhecidos por esses pecados, embora a razão mais simples devesse tê-los instruído em contrário. O mesmo mal que trouxe Sodoma e Gomorra sob o juízo de Deus tornou-se comum, e até abertamente defendido, entre as nações pagãs.

O apóstolo provavelmente tem em vista, sobretudo, as práticas impuras ligadas ao culto aos ídolos. Nesses cultos, os piores atos de impureza eram muitas vezes exigidos como parte da devoção aos falsos deuses. Era um culto imundo prestado a deuses imundos, e os espíritos malignos se alegram com esse tipo de serviço. Onde o antigo culto pagão foi reavivado e “santos” foram colocados no lugar de demônios, as mesmas abominações foram ditas aparecer abertamente, com aprovação de autoridades religiosas e até defendidas por alguns dos seus líderes. As mesmas doenças espirituais acompanham os mesmos pecados espirituais.

Isso deve nos levar a reconhecer a maldade da natureza humana. Como o homem se torna odioso e vil quando é deixado a si mesmo. Davi perguntou: “Que é o homem?” e, de fato, que criatura miserável ele se torna separado da ajuda de Deus. Devemos muito à graça que refreia o mal, por preservar qualquer resquício de honra e decência humanas. Sem esse freio, o homem, embora feito um pouco menor do que os anjos, se lançaria muito abaixo até dos demônios.

Esse juízo é chamado de “recompensa que convinha ao seu erro”. O Juiz de toda a terra procede com retidão, ajustando o castigo ao pecado.

Eles também foram entregues a um sentimento perverso, isto é, a uma mente reprovada, inútil, incapaz de julgar corretamente as coisas espirituais (Romanos 1:28). Não se aprovaram de ter Deus em seu conhecimento. A mente se obscureceu porque a vontade e os desejos já haviam se desviado. Não queriam conhecer a Deus, pois esse conhecimento atrapalharia seus desejos pecaminosos. Esse é o padrão comum dos corações carnais, que fazem de agradar a si mesmos o objetivo supremo.

Muitos ainda retêm algum conhecimento de Deus, porque a verdade se lhes impõe com clareza. Mas não a conservam. Dizem ao Todo-Poderoso: “Retira-te de nós” (Jó 21:14). Os pagãos conheciam a Deus de algum modo, mas não quiseram reconhecê-lo como tal. Há diferença entre saber que Deus existe e admiti-lo como Deus.

Por rejeitarem a verdade com corações obstinados, Deus os entregou à obstinação nos piores pecados. Isso é o que se entende por mente reprovada: uma mente sem juízo sadio, incapaz de discernir o bem e o mal nas coisas espirituais. Veja até onde conduz o caminho do pecado, e em que abismo ele finalmente lança o pecador. As concupiscências da carne levam diretamente para lá. “Tendo os olhos cheios de adultério”, não cessam de pecar (2 Pedro 2:14). Uma mente reprovada é como uma consciência cega e insensível, sem mais sentir (Efésios 4:19). Quando o juízo de uma pessoa passa a concordar com o pecado, ela já está à beira do inferno.

A princípio, Faraó endureceu o próprio coração, mas depois Deus endureceu o coração de Faraó. Assim, o endurecimento voluntário é justamente punido por Deus com um endurecimento judicial, um endurecimento que ele envia em juízo. Fazer “coisas que não convêm” significa praticar o que é incompatível com a decência comum, com a luz da natureza e com a lei natural. Em seguida, Paulo apresenta uma lista sombria das práticas vergonhosas em que os gentios caíram quando Deus os entregou a uma mente reprovada.

Nenhuma maldade é tão grande, tão contrária à natureza, à lei das nações ou ao bem da vida humana, que essa mente não a aprove. A história mostra que esses pecados dominavam naquele tempo, especialmente entre os romanos, cuja antiga virtude cívica havia se degenerado gravemente. Paulo menciona nada menos que vinte e três tipos de pecados e pecadores (Romanos 1:29-31). Ali estava o trono de Satanás. Seu nome é Legião, porque são muitos. Era mais do que tempo de o evangelho ser pregado entre eles, pois o mundo precisava de reforma.

Primeiro aparecem os pecados contra a primeira tábua da lei, isto é, pecados contra Deus: “aborrecedores de Deus”. Neles o pecado mostra seu verdadeiro rosto. É algo quase inimaginável: criaturas racionais odiarem o Bem supremo, criaturas totalmente dependentes desprezarem a fonte da própria vida. No entanto, é isso que acontece. Todo pecado traz em si um ódio a Deus, ainda que alguns pecadores se mostrem inimigos mais declarados do que outros (Zacarias 11:8). Os soberbos e jactanciosos se colocam contra Deus e colocam coroas em suas próprias cabeças que deveriam ser lançadas diante do trono dele.

Depois vêm os pecados contra a segunda tábua, ou seja, pecados contra o próximo. Paulo destaca especialmente esses, porque as pessoas tinham uma luz mais clara a respeito deles. No geral, ele os acusa de injustiça. Essa palavra vem primeiro, porque todo pecado é injustiça. Significa reter o que é devido e distorcer o que é reto. Aplica-se de modo especial aos pecados contra o próximo, fazer aos outros o que não queremos que seja feito a nós.

Contra o quinto mandamento ele menciona filhos desobedientes e os sem afeto natural, isto é, pais cruéis e sem bondade com seus filhos. Quando o dever falha de um lado, muitas vezes falha também do outro. Filhos desobedientes frequentemente são castigados com pais sem afeto natural, e pais sem afeto natural com filhos desobedientes.

Contra o sexto mandamento ele enumera maldade, malícia, inveja, homicídio, contenda, rivalidade movida por inveja, comportamento odioso, ser irreconciliável e sem misericórdia. Tudo isso são formas de ódio ao irmão, que é assassinato no coração. Contra o sétimo mandamento ele menciona a fornicação. Não acrescenta mais ali, porque já tinha falado de outros pecados sexuais.

Contra o oitavo mandamento ele menciona injustiça e avareza. Contra o nono, engano, murmuração, maledicência, quebra de alianças, mentira e calúnia. E ainda acrescenta duas acusações amplas que não tinham sido citadas antes: inventores de males e falta de entendimento. Eram hábeis para tramar o mal, mas tolos quanto ao que agrada a Deus. Quanto mais cuidadosamente o pecador planeja o mal, maior é sua culpa. Pode ser rápido e perspicaz para o pecado e, ao mesmo tempo, completamente insensato nas coisas de Deus.

Isso deveria humilhar a todos nós, porque revela a profundidade da nossa corrupção natural. Por natureza, todo coração humano contém a semente e o princípio de todos esses pecados. Paulo então conclui apontando para a parte mais grave da culpa deles em (Romanos 1:32).

Primeiro, eles conheciam o juízo de Deus. Isso significa que sabiam o que a justiça de Deus exige, o que o reto juízo dele determina. Também sabiam a pena, como Paulo explica ali: sabiam que os que praticam tais coisas são dignos de morte, inclusive de morte eterna. A própria consciência não podia deixar de avisá-los disso, e mesmo assim prosseguiam.

O pecado é muito pior quando é cometido com plena luz, especialmente quando se conhece o juízo de Deus. (Tiago 4:17) diz que é pecado saber o que é certo e não o fazer. É ousadia orgulhosa e imprudente correr diretamente contra a ponta de uma espada. Tal pecado mostra um coração endurecido e firmemente decidido no mal.

Segundo, eles não apenas praticavam essas coisas, mas também se agradavam dos que as faziam. Às vezes, uma tentação forte pode arrastar alguém ao pecado, e um desejo corrompido pode até encontrar algum prazer nisso. Mas ter prazer nos pecados alheios é amar o próprio pecado. É alinhar-se com a causa do diabo e cooperar para o crescimento do seu reino.

A expressão usada ali indica aprovação conjunta, de modo que não se trata apenas de cometer o pecado. Eles o defendem, o desculpam e incentivam outros a fazer o mesmo. Nossos próprios pecados se tornam ainda piores quando concordamos com os pecados de outras pessoas e neles encontramos prazer. Considerando tudo isso, fica claro que o mundo gentio, tão carregado de culpa e corrupção, jamais poderia ser posto em retidão diante de Deus por qualquer obra que viesse de si mesmo.

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