Versículo em destaque
Mateus 6:9 - Significado e aplicação
Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje
Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro
" Eis como vocês devem orar: PAI NOSSO, que estás no céu, santificado seja o teu nome; "
Mateus 6:9
Versículo no contexto
Entender os versículos ao redor evita interpretações incorretas:
7 Nas orações de vocês, não multipliquem as palavras, como fazem os pagãos, que julgam que serão ouvidos à força de palavras.
8 Não os imitem, porque seu Pai sabe do que vocês necessitam antes que vocês peçam isso a ele.
9 Eis como vocês devem orar: PAI NOSSO, que estás no céu, santificado seja o teu nome;
10 venha a nós o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.
11 O nosso pão de cada dia dá-nos hoje;
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Quando Cristo corrigiu o que estava errado, em seguida mostrou o caminho melhor, porque suas reprovações têm o propósito de ensinar. Como não sabemos orar como convém, ele socorre a nossa fraqueza dando-nos palavras a usar: “Portanto, vós orareis assim” (Mateus 6:9). Tanta corrupção havia entrado na oração entre os judeus, que Cristo viu ser necessário dar um novo guia para a oração. Ele mostra aos discípulos o que normalmente deve encher suas orações e que formato essas orações devem ter.
Ele nos dá palavras que podem, sim, ser usadas como uma forma de oração, um breve resumo das muitas partes dos nossos pedidos. Mas não estamos obrigados a usar somente essa oração, nem sempre exatamente essas palavras, como se as demais orações precisassem ser “santificadas” por ela. Somos instruídos a orar “desta maneira”, com essas palavras ou nesse sentido. Lucas registra a oração com algumas diferenças, e não vemos os apóstolos usá-la como forma fixa. Aqui ainda não somos ensinados a orar em nome de Cristo, como acontece mais adiante. Somos ensinados a pedir que o reino venha, o que aconteceu quando o Espírito Santo foi derramado. Mesmo assim, é muito bom usá-la como forma, e é sinal da comunhão dos crentes. A igreja a tem usado em todas as épocas, pelo menos, como diz o Dr. Whitby, desde o século terceiro.
É a Oração do Senhor, composta e estabelecida por ele. Muito breve, mas muito cheia, porque ele se compadece da nossa fraqueza na oração. O conteúdo é excelente e necessário, a ordem é instrutiva e as palavras são muito concisas. Há muito em pouco. Devemos aprender bem o seu significado, porque ela só é usada corretamente quando é usada com entendimento e sem repetição vazia.
A Oração do Senhor, como toda oração, é como uma carta enviada da terra ao céu. Tem o seu destinatário, nosso Pai; o seu lugar, nos céus; seus pedidos, nas várias petições; a sua conclusão, “pois teu é o reino”; o seu selo, “Amém”; e, se quisermos, até a sua data, “hoje”. Em resumo, a oração tem três partes: a abertura, “Pai nosso, que estás nos céus”; as petições; e o louvor final.
Antes de apresentarmos nossas necessidades, precisamos fazer uma aproximação solene daquele com quem falamos: “Pai nosso”. Isso nos lembra que não devemos orar apenas sozinhos e por nós mesmos, mas também com e pelos outros, pois pertencemos uns aos outros e somos chamados à comunhão. Aqui somos ensinados a quem devemos orar: somente a Deus, e não a santos ou anjos. Eles não nos conhecem, não recebem a honra própria da oração e não podem conceder a ajuda que buscamos. Também somos ensinados como falar com Deus, e que título usar para ele: um título que o mostra bondoso e pronto a socorrer, pois nos aproximamos confiadamente do trono da graça.
Em primeiro lugar, devemos dirigir-nos a ele como nosso Pai e chamá-lo assim. Ele é Pai de todos os homens pela criação (Malaquias 2:10; Atos 17:28). De modo especial, é Pai dos crentes pela adoção, isto é, quando nos recebe em sua família, e pelo novo nascimento (Efésios 1:5; Gálatas 4:6). Esse é um privilégio maravilhoso. Na oração devemos contemplar Deus dessa forma e conservar bons pensamentos a respeito dele, pensamentos que nos animem em vez de nos amedrontar. Nada é mais agradável a Deus, nem mais consolador para nós, do que chamar Deus de Pai. Cristo geralmente chamava Deus de Pai em suas orações.
Se ele é nosso Pai, terá compaixão de nós em nossas fraquezas e faltas (Salmo 103:13), nos poupará (Malaquias 3:17) e fará o melhor possível com os nossos esforços pobres, mesmo longe da perfeição. Ele não negará nada do que seja realmente bom para nós (Lucas 11:11-13). Podemos nos aproximar dele com ousadia, como de um pai. Temos um Advogado junto ao Pai, e o Espírito de adoção. Quando viermos entristecidos por causa do pecado, devemos pensar em Deus como Pai, como fez o filho pródigo (Lucas 15:18; Jeremias 3:19). Quando pedirmos graça, paz, herança e a bênção de filhos, ajuda-nos lembrar que chegamos a Deus não como a um juiz irado ainda não reconciliado conosco, mas como a um Pai amoroso e gracioso, que fez paz conosco em Cristo (Jeremias 3:4).
Em segundo lugar, ele é nosso Pai que está nos céus. Ele está nos céus, embora os céus não o possam conter, e ali manifesta a sua glória de modo especial, pois é o seu trono (Salmo 103:19). Para os crentes, é um trono de graça. Devemos dirigir nossas orações a ele ali, porque Cristo, o Mediador, aquele que une Deus e os homens, agora está nos céus (Hebreus 8:1). O céu está além da nossa visão e é um mundo de espíritos, por isso nossa conversa com Deus na oração deve ser espiritual. O céu é nas alturas, então, na oração, devemos nos elevar acima do mundo e erguer o coração (Salmo 5:1). O céu é puro, então devemos erguer mãos puras e buscar honrar o seu nome, pois ele é o Santo que habita naquele lugar santo (Levítico 10:3).
Dos céus Deus vê os filhos dos homens (Salmo 33:13, 14). Na oração, devemos lembrar que o seu olhar está sobre nós. De lá ele tem visão plena e clara de todas as nossas necessidades, cargas, desejos e fraquezas. O céu é também o firmamento onde ele manifesta o seu poder (Salmo 150:1). Ele não só pode, como Pai, nos socorrer e fazer infinitamente mais do que pedimos ou pensamos, como também possui tudo o que é necessário para suprir nossas carências, pois toda boa dádiva vem do alto. Ele é Pai, portanto podemos nos aproximar com confiança. Mas é Pai que está nos céus, então devemos vir com reverência (Eclesiastes 5:2). Assim, todas as nossas orações devem combinar com o nosso grande alvo como cristãos, que é estar com Deus no céu. Deus e o céu, alvo de toda a nossa vida, precisam estar claramente em vista em cada oração. A oração nos envia adiante, para o lugar para onde dizemos estar caminhando.
As petições são seis. As três primeiras dizem mais diretamente respeito a Deus e à sua honra; as três últimas dizem respeito às nossas necessidades, terrenas e espirituais. Isso se parece com os Dez Mandamentos, em que os quatro primeiros ensinam nosso dever para com Deus e os seis últimos nosso dever para com o próximo. A ordem desta oração nos ensina a buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça, confiando que as demais coisas nos serão acrescentadas.
“Santificado seja o teu nome.” É a mesma palavra que, em outros lugares, é traduzida por “santificado”. Aqui se manteve o termo “santificado” por ser o que o povo já estava acostumado a usar na Oração do Senhor. Nessas palavras damos glória a Deus. Elas podem ser entendidas não só como pedido, mas também como louvor, como se disséssemos: “Seja engrandecido o Senhor” ou “glorificado”, porque a santidade de Deus é a beleza e grandeza de todos os seus outros atributos. Devemos começar nossas orações louvando a Deus, e é justo que ele seja servido em primeiro lugar, antes de pedirmos misericórdia e graça.
Devemos louvá-lo por aquilo que ele é, e então desfrutar do benefício de tudo o que ele é. Nesta petição também estabelecemos o nosso alvo. É o alvo correto e deve ser o nosso principal e último propósito em tudo o que pedirmos: que Deus seja glorificado. Todas as outras petições devem servir a esse fim. Devemos orar, em essência: “Pai, glorifica a ti mesmo ao me dar o pão de cada dia e ao perdoar os meus pecados”, e em todo o restante.
Porque tudo é de Deus e por Deus, tudo deve ser também para Deus. Na oração, nossos pensamentos e desejos devem mirar principalmente a glória de Deus. Os fariseus, líderes religiosos judeus, fizeram do próprio nome o fim principal das suas orações, querendo ser vistos pelos homens (Mateus 6:5). Em contraste com isso, Jesus nos manda fazer do nome de Deus o objetivo principal. Que cada pedido que trouxermos repouse nesse alvo e seja moldado por ele: “Faze isto por mim, para glória do teu nome, e apenas na medida em que isso te honre.”
Quando pedimos que o nome de Deus seja santificado, estamos pedindo que o próprio Deus, e tudo pelo que ele se deu a conhecer, seja tratado como santo por nós, pelos outros e, de modo especial, por ele mesmo. Oramos: “Pai, seja o teu nome glorificado como Pai que estás nos céus. Mostra a tua bondade, a tua grandeza, a tua majestade e a tua misericórdia. Seja o teu nome tratado como santo, porque santo ele é. Que os nossos nomes manchados valham menos, mas, Senhor, que será do teu grande nome?”
Ao pedir que o nome de Deus seja glorificado, pedimos por algo que Deus certamente fará de qualquer maneira. Ele honrará o seu próprio nome, quer peçamos quer não, como está em (Salmo 46:10): “Serei exaltado entre as nações.” Também pedimos por algo que sabemos que será concedido. Quando nosso Salvador orou: “Pai, glorifica o teu nome”, a resposta veio imediatamente: “Eu já o glorifiquei e ainda o glorificarei.”
“Venha o teu Reino” aponta claramente para a mesma mensagem que Cristo estava pregando naquela época, a mesma mensagem que João Batista havia pregado antes dele, e a mesma mensagem que Jesus depois enviou seus apóstolos para anunciar: o Reino dos céus está próximo. Isso significa que o Reino do Pai, o Reino do Messias, está perto, e devemos orar pela sua vinda. Devemos transformar em oração aquilo que ouvimos da Palavra de Deus. Nosso coração deve responder às promessas de Deus. Se Cristo diz: “Certamente venho sem demora”, nosso coração deve responder: “Amém. Vem”.
Os ministros devem orar sobre a Palavra que pregam. Quando anunciam que o Reino de Deus está próximo, devem também suplicar: “Pai, venha o teu Reino”. Aquilo que Deus prometeu, devemos pedir em oração. As promessas não são dadas para substituir a oração, mas para despertá-la e encorajá-la. Quando o tempo prometido se aproxima, devemos orar com mais fervor ainda. Daniel fez isso quando percebeu que estava perto o tempo do livramento de Israel (Daniel 9:2). Os judeus também oravam diariamente para que Deus fizesse seu Reino governar, que sua redenção avançasse e que o Messias viesse libertar o seu povo.
“Venha o teu Reino” significa: que o evangelho seja pregado a todos e recebido por todos. Que todos se submetam ao que Deus declarou a respeito de seu Filho em sua Palavra e o recebam como Salvador e Rei. Que a igreja do evangelho cresça, que o mundo se torne Reino de Cristo e que todas as pessoas vivam como súditos desse Reino.
“Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.” Oramos para que, vindo o Reino de Deus, nós e os outros passemos a obedecer a todas as leis e mandamentos desse Reino. Assim se mostrará que o Reino de Cristo já chegou. E também se mostrará que é um Reino vindo do céu, que traz algo do céu para a terra. Fazemos de Cristo apenas um nome vazio se o chamamos de Rei e não obedecemos à sua vontade. Tendo pedido que ele nos governe, pedimos também que sejamos de fato governados por ele em tudo.
O que pedimos é claro: “Seja feita a tua vontade.” Em outras palavras: “Senhor, faze comigo e com tudo o que é meu o que bem te agradar” (1 Samuel 3:18). “Eu me entrego a ti e estou plenamente satisfeito que todos os teus propósitos em relação a mim se cumpram.” Nesse sentido, o próprio Cristo orou: “Não se faça a minha vontade, mas a tua.” E também pedimos: “Capacita-me a fazer o que te agrada. Dá-me a graça necessária para conhecer bem a tua vontade e obedecê-la corretamente.” Que a tua vontade seja feita por mim e pelos outros com disposição voluntária, não a nossa própria vontade, não os desejos da carne ou da mente, nem a vontade dos homens (1 Pedro 4:2), muito menos a vontade de Satanás (João 8:44). Oramos para que nunca façamos coisa alguma que desagrade a Deus, nem fiquemos revoltados com qualquer coisa que Deus faça.
O modelo também é claro: “na terra como no céu.” A terra é o lugar de prova e de trabalho, onde a obra deve ser feita, se é que algum dia será feita. O céu é o lugar de descanso e alegria. Oramos para que a terra se torne mais parecida com o céu, por meio da obediência à vontade de God. Esta terra se tornou muito próxima do inferno por causa do domínio da vontade de Satanás, e pedimos que os crentes se tornem mais parecidos com os santos anjos em devoção e obediência. Estamos na terra, graças a Deus, ainda não debaixo da terra. Oramos pelos vivos, não pelos mortos que já desceram ao silêncio.
“O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.” Como a vida do corpo é necessária para a vida espiritual neste mundo, primeiro oramos pela glória de Deus, por seu Reino e por sua vontade, e depois oramos pelas necessidades desta vida presente. Estas são dádivas de Deus, e devemos pedi-las a ele. A expressão envolve o pão para o dia que vem, o pão para o tempo que ainda nos resta de vida, ou o pão para o nosso sustento, o que convém ao nosso lugar no mundo (Provérbios 30:8).
Cada parte desse pedido ensina algo. Pedimos pão, o que ensina sobriedade e domínio próprio. Pedimos pão, não luxo ou supérfluos, mas o que é saudável, ainda que simples. Pedimos o nosso pão, o que ensina honestidade e trabalho. Não pedimos alimento tirado de outros, nem o pão da falsidade (Provérbios 20:17), nem o pão da preguiça (Provérbios 31:27), mas o que é adquirido honestamente. Pedimos pão de cada dia, o que nos ensina a não andar ansiosos pelo dia de amanhã (Mateus 6:34), mas a depender do cuidado de Deus dia após dia.
Pedimos que Deus no-lo dê, não que o venda ou empreste, mas que o dê. Mesmo as pessoas mais importantes dependem da misericórdia de Deus para o seu pão de cada dia. E dizemos: “Dá-nos”, não “dá-me” apenas, mas também aos outros comigo. Isso ensina caridade e cuidado pelos pobres e necessitados. Mostra também que devemos orar com nossas famílias, já que comemos juntos e devemos orar juntos. Pedimos “hoje”, o que nos ensina a renovar sempre nosso desejo para com Deus, conforme nossas necessidades se renovam a cada dia. Tão regularmente quanto o dia nasce, devemos nos dirigir em oração ao nosso Pai celestial. Devemos sentir que não podemos viver um dia sem alimento, mas também não podemos viver um dia sem oração.
“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.” Este pedido está ligado ao anterior porque começa com “e perdoa”, mostrando que, sem o perdão dos pecados, não podemos ter verdadeiro consolo nem na vida nem nos meios de sustento desta vida. Nosso pão de cada dia apenas nos alimentaria como cordeiros destinados ao abate, se nossos pecados não fossem perdoados.
Isso também mostra que devemos pedir perdão diário com a mesma regularidade com que pedimos o pão diário. “Aquele que já se banhou” ainda precisa lavar os pés. Aqui há uma súplica: “Pai celestial, perdoa-nos as nossas dívidas”, isto é, nossas dívidas para contigo. Nossos pecados são nossas dívidas. Como criaturas, devemos a Deus a dívida da obediência, e, quando não a pagamos, contraímos também a dívida da punição.
Ao desobedecermos à vontade de Deus, colocamo-nos debaixo de sua ira. Ao não cumprirmos o que a lei manda, ficamos sujeitos à pena que ela prevê. Um devedor pode ser levado ao tribunal, e assim também nós. O transgressor é devedor da lei, e assim somos nós. Todos os dias o desejo e a oração do nosso coração ao Pai celestial deveriam ser que ele nos perdoe as dívidas.
Pedimos que a reclamação de justiça contra nós seja anulada, para que não sejamos condenados. Pedimos ser libertos e ter o consolo dessa libertação. Ao pedir perdão, nossa grande base é a satisfação feita à justiça de Deus pelos pecados humanos, por meio da morte do Senhor Jesus, nosso Fiador, aquele que se pôs em nosso lugar, ou melhor, nosso Fiador que assumiu a responsabilidade por nossa libertação.
O pedido é reforçado por este argumento: “assim como nós perdoamos aos nossos devedores.” Não é um apelo baseado em mérito, mas em graça. Aqueles que se aproximam de Deus em busca de perdão por seus pecados contra ele devem, com toda seriedade, perdoar os que lhes fizeram mal. Caso contrário, condenam a si mesmos quando recitam a Oração do Senhor.
Nosso dever é perdoar nossos devedores. Em se tratando de dívidas de dinheiro, não devemos ser duros e implacáveis na cobrança daqueles que não podem pagar sem arruinar a si mesmos e à sua família. Mas aqui o principal sentido é ofensa, não dinheiro. Nossos devedores são os que transgridem contra nós, os que nos ferem, como em (Mateus 5:39, Mateus 5:40), e que, pela letra rigorosa da lei, poderiam ser processados por isso. Devemos conter-nos, perdoar e esquecer as injúrias e ofensas feitas contra nós.
Esse espírito perdoador é um sinal moral que combina com o perdão e a paz. Dá-nos motivo para esperar que Deus nos perdoará, porque, se essa disposição graciosa está em nós, foi Deus quem a produziu. Sendo o perdão algo tão alto e santo nele, é uma evidência de que ele já nos perdoou, ao operar em nós essa condição de perdoar.
“E não nos conduzas à tentação; mas livra-nos do mal.” Esse pedido vem em duas partes. Primeiro, de modo negativo: “Não nos conduzas à tentação.” Depois de pedir que a culpa do pecado seja tirada, é justo pedir que não retornemos à loucura, nem sejamos tentados de volta a ela. Isso não quer dizer que Deus tente alguém ao pecado. Quer dizer: “Senhor, não deixes Satanás solto contra nós. Acorrenta esse leão que ruge, pois é astuto e cruel. Senhor, não nos deixes entregues a nós mesmos” (Salmo 19:13), “porque somos muito fracos. Senhor, não coloques tropeços e armadilhas em nosso caminho, nem nos ponhas em situações que nos façam cair.”
Devemos orar contra as tentações tanto porque elas trazem angústia e sofrimento, como porque podemos ser vencidos por elas. Então seguem-se culpa e tristeza. Em segundo lugar, de modo positivo: “Mas livra-nos do mal”, ou “do maligno”, o diabo, o tentador. Pedimos ser guardados para não sermos atacados por ele ou, se atacados, não sermos derrotados por tais ataques. Ou pode significar: livra-nos da coisa má, o pecado, o pior de todos os males, um mal — na verdade, o único mal verdadeiro — aquilo que Deus odeia e que Satanás usa para tentar e destruir as pessoas.
Também pedimos para ser libertos do mal do mundo, da corrupção que há no mundo por causa da cobiça e dos desejos pecaminosos. Pedimos para ser libertos do mal que acompanha toda condição neste mundo, do mal da morte e do aguilhão da morte, que é o pecado. Pedimos para ser libertos de nós mesmos, de nossos próprios corações maus, e de pessoas malignas, para que elas não se tornem um laço para nós, nem nós nos tornemos presa delas.
A conclusão é: “Porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.” Alguns ligam essa frase ao louvor de Davi em (1 Crônicas 29:11), onde se diz que do Senhor é a grandeza. Isso serve, primeiro, como um apelo para fortalecer as petições anteriores. É nosso dever, em oração, apresentar razões diante de Deus, “encher a nossa boca de argumentos” (Jó 23:4), não para convencer ou persuadir a Deus, mas para moldar o nosso próprio coração, fortalecer a nossa fé, despertar a nossa sinceridade e demonstrar ambas.
Os melhores argumentos na oração vêm do próprio Deus e do que ele revelou sobre si mesmo. Devemos “lutar” em oração com a força que ele mesmo concede, tanto no tipo de argumentos que usamos quanto na forma como os apresentamos. Esta conclusão se ajusta especialmente aos três primeiros pedidos: “Pai nosso, que estás nos céus, venha o teu reino, pois teu é o reino. Seja feita a tua vontade, pois teu é o poder. Santificado seja o teu nome, pois tua é a glória.”
Ela também nos anima quanto às nossas necessidades. “Teu é o reino” quer dizer: tu governas o mundo e proteges os santos, o teu povo voluntário nele. Deus dá e salva como Rei. “Teu é o poder” quer dizer: tu és capaz de sustentar esse reino e cumprir todas as promessas que fizeste ao teu povo. “Tua é a glória” quer dizer: todo o bem concedido aos santos, e tudo o que é feito por eles em resposta à oração, termina em teu louvor, porque o louvor deles te espera.
Isso também é forma de louvor e gratidão. A melhor maneira de suplicar a Deus é louvá‑lo. O louvor nos prepara para receber mais misericórdia. Em todas as nossas orações, o louvor deve ocupar grande lugar, porque louvar convém aos santos. Devemos ser um povo para honra e louvor de Deus. É justo e adequado louvá‑lo e dar‑lhe glória, não porque ele precise disso, pois já é louvado por um mundo de anjos, mas porque ele o merece, e porque é nosso dever honrá‑lo de acordo com o propósito com que se revelou a nós.
O louvor é o trabalho e a alegria do céu. Todos os que esperam ir para o céu depois devem começar o seu “céu” agora. Note como esta doxologia é cheia: o reino, o poder e a glória, tudo é dele. Devemos ser generosos em louvar a Deus. O verdadeiro crente nunca pensa que já falou bem demais de Deus. Deve haver um transbordar livre de louvor, e esse louvor deve durar para sempre.
Dar glória a Deus para sempre significa reconhecer que glória lhe é sempre devida, e desejar intensamente continuar dando‑a para sempre, juntamente com os anjos e santos lá de cima (Salmo 71:14). Por fim, somos ensinados a acrescentar o nosso “Amém”, isto é, “assim seja”. O “Amém” de Deus é a concessão, o “que assim seja” divino. O nosso “Amém” é o nosso sincero desejo, o nosso “que assim seja”. Dizemos “Amém” como sinal de desejo e também de confiança de que seremos ouvidos.
O “Amém” se estende para trás, alcançando cada pedido anterior. Em compaixão à nossa fraqueza, somos ensinados a resumir toda a oração numa só palavra, reunindo de forma geral aquilo que podemos ter perdido ou esquecido nos detalhes. É bom terminar os deveres religiosos com calor e vigor, para que saiamos deles com um doce senso de Deus em nosso espírito.
Era costume, entre os piedosos, dizer “Amém” em voz alta no fim de cada oração. Esse é um bom costume, desde que seja feito com entendimento, como diz o apóstolo (1 Coríntios 14:16). Deve ser feito também com sinceridade, com vida e calor reais no íntimo, correspondendo às palavras exteriores de desejo e confiança.
A maioria dos pedidos da Oração do Senhor já era usada pelos judeus em suas orações, ou em palavras muito semelhantes. Mas a frase da quinta petição, “assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, era totalmente nova. Por isso o nosso Salvador explica por que a acrescentou, não para fazer um comentário particular sobre o temperamento áspero, o gosto por contendas judiciais ou a falta de bondade daquela geração, embora houvesse bastante motivo para isso. Ele a acrescentou porque o assunto em si é extremamente necessário e importante.
Quando Deus nos perdoa, ele dá atenção especial a se perdoamos aqueles que nos ofenderam. Por isso, quando pedimos perdão, devemos mencionar o cuidado de cumprir esse dever. Isso nos lembra dele e também nos prende a ele. Veja a parábola em (Mateus 18:23‑35). A natureza humana egoísta resiste a isso, por isso Cristo insiste nesse ponto (Mateus 6:14; Mateus 6:15).
Ele apresenta primeiro isso como promessa: se vocês perdoarem, o Pai celestial também vos perdoará. Isso não quer dizer que o perdão seja a única condição exigida. Devem haver também arrependimento, fé e nova obediência. Mas, onde essas graças estão de fato presentes, o perdão aos outros também estará. E essa bondade para com o irmão mostra que a pessoa está realmente contrita diante de Deus.
As coisas chamadas “dívidas” na oração são chamadas aqui de “ofensas”, isto é, injúrias ou danos feitos a nós no corpo, nos bens ou na reputação. “Ofensas” é uma palavra mais branda para designar pecados contra nós, como tropeços ou escorregões. É bom sinal, e verdadeira ajuda, quando usamos um nome mais suave para os males que nos fazem. Não os chame de traições, mas de ofensas. Não os chame de injúrias premeditadas, mas de descuidos. Talvez tenha sido apenas uma falta de atenção (Gênesis 43:12); faça, portanto, a melhor interpretação possível.
Devemos perdoar aos outros como esperamos ser perdoados. Isso significa mais do que não odiá‑los nem maquinar vingança. Significa também não ficar lembrando suas ofensas contra nós, e não nos alegrarmos quando lhes sobrevém algum mal. Pelo contrário, devemos estar prontos a socorrê‑los e a lhes fazer o bem. Se se arrependerem e buscarem reconciliação, devemos ser abertos e gentis como antes.
Cristo também dá um aviso: se você não perdoa os que o ofenderam, isso é um mau sinal de que você não possui, de fato, as outras qualidades necessárias, e não está apto a receber perdão. Nesse caso, o Pai, a quem você chama de Pai e que oferece sua graça em termos justos, não o perdoará. E, ainda que sua graça seja verdadeira, se você falha grandemente neste ponto de perdoar os outros, não pode esperar o consolo do perdão. Pode ser que precise passar por alguma prova ou aflição que humilhe seu espírito até que obedeça a esse dever.
Os que querem misericórdia de Deus devem mostrar misericórdia aos irmãos. Não podemos esperar que Deus estenda sobre nós a mão do seu favor se não erguermos para ele mãos santas, sem ira (1 Timóteo 2:8). Se oramos tomados pela ira, devemos temer que Deus responda em ira. Já se disse que as orações feitas em raiva são escritas em fel.
Que razão haveria para Deus perdoar as grandes dívidas que lhe devemos, se nos recusamos a perdoar aos irmãos as pequenas dívidas que nos devem? Cristo veio ao mundo como o grande pacificador. Veio não só para nos reconciliar com Deus, mas também para nos reconciliar uns com os outros. Devemos concordar com ele nesse propósito. É ousado e perigoso tratar com leveza aquilo a que Cristo dá tanto peso. As paixões humanas não anularão a Palavra de Deus.
Deste capítulo
Mateus 6:1
"“Guardem-se de fazer suas boas obras diante dos homens para serem vistos por eles. Do contrário, vocês não terão recompensa junto de seu Pai que está no céu."
Mateus 6:2
"Quando, pois, você der esmola, não toque a trombeta diante de você, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu digo a vocês: já receberam sua recompensa."
Mateus 6:3
"Quando você der esmola, que sua mão esquerda não saiba o que a direita fez."
Mateus 6:4
"Assim, sua esmola será feita em segredo; e seu Pai, que vê o que está escondido, irá recompensar você."
Mateus 6:5
"Quando vocês orarem, não façam como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelos homens. Em verdade eu digo a vocês: já receberam sua recompensa."
Mateus 6:6
"Quando você orar, entre no seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai em segredo; e seu Pai, que vê num lugar oculto, recompensará você."
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