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João 17:11 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro

" Já não estou no mundo, mas eles ainda estão no mundo; eu, porém, vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome, que me encarregaste de dar a conhecer, a fim de que sejam um como nós. "

João 17:11

menu_book Versículo no contexto

9 É por eles que eu rogo. Não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus.

10 Tudo o que é meu é teu, e tudo o que é teu é meu. Neles sou glorificado.

11 Já não estou no mundo, mas eles ainda estão no mundo; eu, porém, vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome, que me encarregaste de dar a conhecer, a fim de que sejam um como nós.

12 Enquanto eu estava com eles, eu os guardava em teu nome, que me incumbiste de dar a conhecer. Conservei os que me deste, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura.

13 Mas agora vou para junto de ti. Dirijo-te esta oração enquanto estou no mundo, para que eles tenham a plenitude da minha alegria.

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auto_stories Comentário Bible Guided

Depois das intercessões mais gerais, em que Cristo coloca os discípulos sob o cuidado do Pai, ele passa a fazer pedidos específicos por eles. Todos esses pedidos dizem respeito a bênçãos espirituais e realidades celestiais. Ele não pede que se tornem ricos ou poderosos, que adquiram bens ou honra neste mundo, mas que sejam guardados do pecado, capacitados para a sua missão e conduzidos em segurança até o céu. O verdadeiro bem-estar é o da alma, e foi exatamente isso que Cristo veio obter e conceder.

Essas súplicas também se ajustam às necessidades e perigos presentes dos discípulos. A intercessão de Cristo, isto é, sua oração em favor do seu povo, está sempre em perfeita sintonia com a situação. Nosso Advogado junto ao Pai conhece em detalhe nossas necessidades, cargas, perigos e aflições, e molda suas orações de acordo com eles. Ele fez isso diante do perigo de Pedro, que o próprio Pedro não via, quando lhe disse: “Eu roguei por ti” (Lucas 22:32).

Cristo ora de modo pleno e com grande intensidade. Ele expõe as necessidades dos discípulos diante do Pai e apresenta fortes razões em favor deles. Isso nos ensina a orar com zelo e perseverança, a ser amplos em nossas orações e a insistir com nossos pedidos perante o trono da graça. Devemos lutar em oração como Jacó, que declarou: “Não te deixarei ir, se me não abençoares”.

A primeira coisa que Cristo pede por seus discípulos é a sua preservação. Ele entrega todos eles à guarda do Pai, porque ser guardado pressupõe que o perigo é real. O perigo vem do mundo em que vivem, e ele pede que sejam guardados do mal que há no mundo. Aqui o pedido é: “Guarda-os do mundo”.

Há duas maneiras pelas quais alguém poderia ser tirado do mundo, mas Cristo não pede nenhuma delas. Ele não pede que sejam retirados do mundo. Isso significaria, em primeiro lugar, serem logo removidos pela morte. Se o mundo lhes seria um lugar doloroso, o alívio mais rápido seria levá-los imediatamente para o mundo melhor, o céu. Jó, Elias, Jonas e Moisés, em momentos difíceis, desejaram ser tirados da vida. Mas Cristo não pede isso para seus discípulos por duas razões. Primeiro, ele veio para vencer as paixões impacientes que tornam as pessoas cansadas da vida e ansiosas pela morte. Ele quer que tomemos a nossa cruz, não que corramos adiante dela. Segundo, ele tinha uma obra para eles cumprirem no mundo. O mundo já estava farto deles e não era digno deles, mas, ao mesmo tempo, mal poderia passar sem eles. Por compaixão deste mundo em trevas, Cristo não desejou que essas luzes fossem retiradas antes que terminassem sua obra, especialmente por causa daqueles que ainda creriam nele por meio da palavra deles. Eles deveriam morrer como mártires em seu tempo, depois de completarem o seu testemunho.

Isso nos lembra que a retirada de pessoas piedosas do mundo não é algo a ser desejado de modo leviano, mas algo a ser considerado com sobriedade. Também é verdade que Cristo não leva seus discípulos imediatamente ao céu no momento em que são verdadeiramente chamados. Ele os deixa aqui por um tempo para que façam o bem, glorifiquem a Deus na terra e sejam preparados para o céu. Muitos servos fiéis são preservados com vida porque outros mal poderiam suportar perdê-los.

Cristo também não pede que sejam totalmente livres de tribulações e arrancados das pressões e perigos desta vida para um lugar de conforto e segurança. Esse não é o tipo de proteção que ele busca para eles. Ele não ora para que sejam isentos de todas as aflições e vivam em facilidade e luxo, mas para que, com a ajuda de Deus, permaneçam seguros em meio ao perigo. Ele não pede que evitem todo conflito com o mundo, mas que o mundo não os vença. Ele não ora para que sejam retirados do meio dos ímpios, mas para que, como Ezequiel, tenham o rosto endurecido contra os rostos duros (Ezequiel 3:8). É maior honra para o soldado de Cristo vencer o mundo pela fé do que fugir dele por um voto de reclusão.

A outra forma de livramento pela qual Cristo intercede é que sejam guardados da corrupção que está no mundo, e é isso que ele pede em (João 17:11) e (João 17:15). Essa petição tem três partes: “Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste”. Cristo está prestes a deixá-los, mas não quer que pensem que sua defesa também os deixará. Diante deles, ele os entrega ao cuidado de seu Pai e Pai deles. Isso é grande consolo para todos os crentes: o próprio Cristo nos confiou ao cuidado de Deus. Aqueles a quem o Deus todo-poderoso guarda estão realmente seguros, e ele certamente guardará aqueles que o Filho ama e lhe entrega. Com essa confiança, podemos entregar a guarda de nossas almas a Deus (1 Pedro 4:19; 2 Timóteo 1:12).

Cristo pede, em primeiro lugar, a proteção deles, para que os inimigos não os destruam. Ele suplica que eles, e tudo o que lhes diz respeito, estejam sob o cuidado especial de Deus. Que suas vidas sejam preservadas até que a obra esteja concluída. Que seus consolos não sejam esmagados pelas aflições. Que seu lugar e sua influência no mundo não se percam. A essa oração devemos a notável preservação do ministério do evangelho e da igreja do evangelho no mundo até hoje. Se Deus não tivesse, em sua graça, guardado ambos, já teriam desaparecido há muito tempo.

Em segundo lugar, Cristo pede o cuidado espiritual deles, para que não se desviem do dever nem sigam a fraqueza e o engano do próprio coração. O sentido é: “Guarda-os na integridade, guarda-os como discípulos, guarda-os próximos ao seu dever”. Precisamos do poder de Deus não apenas para nos introduzir em um estado de graça, no favor salvador de Deus, mas também para nos conservar nesse estado. Veja (João 10:28-29; 1 Pedro 1:5).

Os nomes com que Cristo se dirige a Deus reforçam o pedido. Ele fala com Deus como “Pai santo”. Ao entregarmos a nós mesmos e a outros ao cuidado de Deus, podemos nos consolar, primeiro, em sua santidade. Sua santidade está por trás da proteção de seu povo santo. Ele jurou por sua santidade (Salmo 89:35). Se ele é um Deus santo, que odeia o pecado, então tornará seu povo santo e o guardará do pecado, que eles também odeiam e temem como o maior dos males.

Em segundo lugar, podemos nos consolar em sua paternidade. Por meio de Cristo, ele se coloca para nós como Pai. Se é Pai, cuidará de seus próprios filhos, os instruirá e os guardará. Quem mais o faria? Cristo então se refere aos discípulos como aqueles que o Pai lhe deu.

O que recebemos como dádiva do Pai podemos entregar com segurança ao cuidado do próprio Pai. Assim, Cristo ora: “Pai, guarda os dons e consolos que me deste, os filhos que me entregaste, e o ministério que recebi”.

Ele pede que sejam guardados “em teu nome”. Alguns entendem isso como “por amor do teu nome”. Ou seja, a honra de Deus está ligada à segurança deles, assim como a honra de Cristo. Se eles se afastarem ou caírem, ambas sofrerão. O povo de Deus muitas vezes orou “por amor do teu nome”, e aqueles que mais se preocupam com a honra de Deus podem usar essa expressão com confiança.

Outros entendem como “guarda-os no teu nome”. Isto é, conserva-os no conhecimento e no temor do teu nome, e no serviço público do teu nome, aconteça o que acontecer. Mantém-nos apegados à tua verdade, ao teu culto e aos teus mandamentos. Outros ainda entendem como “guarda-os pelo teu nome”, isto é, pelo teu próprio poder e cuidado. Que o teu nome seja para eles torre forte, e o teu tabernáculo, tua habitação, seja para eles abrigo.

Ele também ora: “Guarda-os do mal”. Isso corresponde à oração que Jesus lhes ensinou a fazer todos os dias: “Livra-nos do mal”, e lhes dá confiança para orar assim. Primeiro, guarda-os do maligno, o diabo, e de todos os seus instrumentos. Guarda-os de Satanás como tentador, para que não os peneire, ou para que sua fé não desfaleça. Guarda-os de Satanás como destruidor, para que não os leve ao desespero.

Segundo, guarda-os do próprio mal, isto é, do pecado. Preserva-os de tudo o que se pareça com pecado ou conduza ao pecado. Guarda-os de modo que não pratiquem o mal (2 Coríntios 13:7). De todos os males, o pecado é o que mais devemos temer.

Terceiro, guarda-os do mal que há no mundo, e dos sofrimentos que enfrentam nele. Que o sofrimento não tenha veneno, nem poder destruidor sobre eles. Cristo não pede que sejam poupados das aflições, mas que sejam conduzidos através delas. Que suas provações, sob o cuidado de Deus, sejam de tal modo transformadas que não lhes causem dano permanente.

Em seguida, ele apresenta razões para esses pedidos, e são cinco. A primeira é lembrar ao Pai que ele já os vinha guardando: “Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome” (João 17:12). Ele quer dizer que os preservou na verdadeira fé do evangelho e no serviço de Deus. Aqueles que o Pai lhe deu como companheiros íntimos, ele os guardou. Nenhum deles se perdeu, nenhum abandonou o caminho ou foi destruído, exceto o filho da perdição, Judas, para que a Escritura se cumprisse.

Isso mostra o fiel cumprimento de Cristo em sua tarefa de guardião dos discípulos. Enquanto esteve com eles, ele os protegeu, e seu cuidado foi eficaz. Ele os guardou no nome de Deus, preservando-os de erros e pecados perigosos, de se aliarem aos fariseus e de o abandonarem para voltar ao que haviam deixado para trás. Mesmo quando os enviou a pregar, continuou velando por eles. Ele os impediu de cair nas mãos de inimigos que queriam matá-los e os guardou quando se entregou a si mesmo (João 18:9).

Enquanto esteve com eles, Cristo os guardou de modo visível, por meio de palavras que eles ouviram e milagres que viram. Quando não estivesse mais com eles dessa forma, precisariam de um cuidado mais interior e espiritual. Deus às vezes concede consolações e apoios sensíveis, e às vezes os retira, mas, quando essas consolações são retiradas, os crentes não ficam sozinhos.

O que Cristo diz aqui a respeito de seus primeiros discípulos é verdadeiro para todos os crentes neste mundo. Cristo os guarda no nome de Deus. Isso mostra, em primeiro lugar, que eles são fracos e não podem guardar a si mesmos. Em segundo lugar, mostra que são preciosos aos olhos de Deus e dignos de serem guardados. Em terceiro lugar, mostra que sua salvação é certa, porque esse é o objetivo de serem guardados (1 Pedro 1:5). Assim como os ímpios são reservados para o dia do juízo, os justos são preservados para o dia da alegria. Em quarto lugar, mostra que estão aos cuidados do Senhor Jesus, pois ele os guarda como encargo seu, como o bom pastor que vigia suas ovelhas.

Ele apresenta esse relatório consolador sobre sua obra: “Nenhum deles se perdeu”. Jesus Cristo certamente guardará todos aqueles que o Pai lhe deu, de modo que nenhum deles se perderá de forma final e absoluta. Podem temer estar perdidos e podem se ver em grande perigo, mas a vontade do Pai é que ele não perca nenhum (João 6:39), e nenhum ele perderá. Isso ficará claro quando todos forem reunidos e não faltar nem um sequer.

Judas é separado como alguém que Cristo nunca assumiu guardar. Ele estivera entre os que foram dados a Cristo, mas não era verdadeiramente um deles. Cristo fala de Judas como alguém já perdido, porque ele havia deixado seu Mestre e seus companheiros discípulos e se entregado à direção do diabo. Logo iria para o seu próprio lugar, de modo que já era como se estivesse perdido. Mas a queda de Judas não trouxe vergonha sobre Cristo nem sobre sua família espiritual.

Judas era o filho da perdição, por isso não estava entre aqueles que foram dados a Cristo para serem guardados. Merecia a destruição, e Deus o deixou correr para ela. Era um filho do destruidor, como Caim, que pertencia ao maligno. O grande inimigo que o Senhor destruirá também é chamado de filho da perdição, porque é um homem do pecado (2 Tessalonicenses 2:3). É terrível que um dos apóstolos tenha se revelado filho da perdição. Nenhuma posição na igreja, nome, privilégios, oportunidades de receber graça, profissão de fé ou obras exteriores podem manter alguém em segurança se o seu coração não estiver reto diante de Deus.

Nada é mais propenso a terminar em ruína do que uma vida de religião exterior unida a um coração como o de Judas, amante do dinheiro e do interesse próprio. No entanto, a distinção clara que Cristo faz entre Judas e os que lhe foram dados mostra que a verdade e a verdadeira religião não devem ser desonradas por causa dos falsos seguidores (1 João 2:19). A Escritura já havia falado da traição de Judas, e o sábio plano de Deus já a havia previsto; assim, o acontecimento cumpriu exatamente a predição, embora a predição não obrigasse o pecado a acontecer. Veja (Salmo 41:9; Salmo 69:25; Salmo 109:8). Ficaríamos ainda mais chocados com a traição dos que caem, se a Escritura não nos tivesse advertido de antemão.

Ele pede ao Pai que os guarde porque agora tinha de deixá-los e já não poderia velar por eles como antes (João 17:11). “Guarda-os agora”, ele diz, “para que eu não perca o trabalho que empenhei neles enquanto estava com eles. Guarda-os para que sejam um conosco, assim como nós somos um entre nós.” Ele falará mais sobre isso em (João 17:21).

Note-se, primeiro, com que alegria ele fala de sua partida. Ele fala disso com senso de vitória e gozo, olhando tanto para o mundo que deixa quanto para o mundo para o qual vai. “E eu já não estou mais no mundo.” É como se dissesse: “Adeus a este mundo perturbador. Já o tive o bastante, e chegou a hora bem-vinda em que não estarei mais nele. Terminei a obra para a qual vim aqui, e agora nada resta senão partir o mais depressa possível.” Para aqueles cujo verdadeiro lar é o mundo vindouro, deve ser motivo de alegria pensar em já não estar neste mundo. Quando tivermos cumprido nossa tarefa aqui e formos preparados para o céu, o que ainda resta aqui para nos prender?

Quando soubermos, em nós mesmos, que a morte está próxima, deveríamos poder dizer com santo júbilo: “Eu já não estou mais neste mundo, este mundo escuro e enganoso, este mundo pobre e vazio, este mundo tentador e contaminador. Já não sou afligido pelos seus espinhos, já não sou enredado pelas suas armadilhas, já não vagueio neste deserto áspero, já não sou jogado pelas ondas deste mar tempestuoso. Agora posso deixá-lo para sempre.”

Em seguida ele diz: “Mas eu vou para ti.” Ser libertado do mundo é apenas parte do consolo de um Cristo que morre, e de um cristão que morre. A melhor parte é pensar em ir para o Pai, para sua alegria imediata, ininterrupta e eterna. Os que amam a Deus não podem deixar de se alegrar ao pensar em ir a ele, ainda que seja pelo vale da sombra da morte. Deixar o corpo é estar com o Senhor, como filhos levados da escola para a casa do pai. “Eu vou para ti”, ele diz, “para ti que escolhi e servi, por quem minha alma anseia. Tu és a fonte de luz e vida, o centro e a coroa da alegria. Agora meu anseio será saciado, minha esperança cumprida e minha felicidade completa, pois vou para ti.”

Depois ele mostra profunda preocupação por aqueles que deixa para trás. “Mas eles estão no mundo”, ele diz. “Eu vi quão mau é o mundo. O que será destes pequeninos queridos que precisam permanecer nele? Pai santo, guarda-os. Eles precisarão da tua presença, já que a minha os está deixando. Necessitam agora do teu cuidado mais do que nunca, porque estou enviando-os mais para dentro do mundo do que jamais foram. Precisarão lançar-se em águas profundas, onde estarão perdidos se tu não os guardares em segurança.”

Aqui devemos notar que, quando o Senhor Jesus estava indo para o Pai, continuava levando em seu coração uma terna preocupação pelos seus que ficam no mundo. Ele ainda sente por eles. Traz seus nomes no peitoral, isto é, em seu coração, e eles estão gravados nas palmas de suas mãos pelos cravos da cruz. Quando ele está fora da vista deles, eles não estão fora da sua vista, e muito menos fora da sua mente. Devemos ter esse mesmo tipo de cuidado por aqueles que estão apenas começando a vida neste mundo quando nós já estamos perto do fim, e por aqueles que deixamos aqui quando estamos partindo.

Devemos também notar que, ao falar da grande necessidade que seus discípulos têm de proteção divina, Cristo simplesmente diz: “Eles estão no mundo.” Isso já é perigo suficiente para pessoas que caminham para o céu. O mundo os lisonjeia e tenta desviá-los, e ao mesmo tempo os odeia e os persegue.

Ele também argumenta que seria motivo de alegria para eles saberem que estavam seguros, e seria motivo de alegria para ele vê-los em paz: “Digo estas coisas para que tenham o meu gozo completo em si mesmos” (João 17:13). Cristo desejava profundamente que seus discípulos tivessem plena alegria, porque é sua vontade que se alegrem sempre. Ele os deixava em meio a lágrimas e tribulações, mas tomou cuidadosa providência para encher a alegria deles. Quando pensavam que a alegria nEle havia acabado, na verdade estava sendo conduzida a uma perfeição maior do que antes.

Aqui somos ensinados a fundamentar nossa alegria em Cristo. É “o meu gozo”, a alegria que ele dá, ou mais exatamente, a alegria que procede dele. Cristo é a alegria do cristão, a principal alegria. A alegria baseada no mundo desvanece à medida que o mundo passa, mas a alegria em Cristo permanece para sempre, porque ele permanece para sempre. Também somos ensinados a cultivar essa alegria com cuidado, porque é ao mesmo tempo dever e privilégio de todo verdadeiro crente. Nenhuma parte da vida cristã nos é recomendada com mais insistência do que essa (Filipenses 3:1; Filipenses 4:4). E somos ensinados a buscar a alegria plena, que ela seja completada em nós, pois é isso que Cristo deseja.

Para garantir essa alegria, ele os confiou solenemente aos cuidados do Pai e quis que eles ouvissem isso de seus próprios lábios: “Estas coisas falo no mundo, para que tenham o meu gozo completo em si mesmos, enquanto ainda estou com eles no mundo.” Sua oração por sua preservação no céu já seria suficiente por si só, mas dizer isso enquanto ainda estava com eles serviria para confortá-los e animá-los ainda mais. Ajudaria para que se alegrassem até mesmo em meio ao sofrimento.

Cristo não apenas acumulou consolo para o seu povo, providenciando o seu bem futuro; ele também lhes deu consolo presente, falando de modo a firmá‑los e satisfazê‑los. Aqui, diante de seus discípulos, ele falou quase como alguém que está fazendo um testamento final e, ao contrário de muitos testadores, disse claramente o que lhes deixava e quão seguramente isso estava guardado. Ele queria que tivessem um forte consolo.

A intercessão de Cristo por nós é suficiente para completar a nossa alegria nele. Nada acalma tão plenamente nossos medos e dúvidas, e nada oferece consolo mais sólido, do que essa verdade: ele está sempre diante de Deus por nós (Romanos 8:34; Hebreus 7:25).

Ele também apresenta, em favor deles, o mau tratamento que provavelmente sofreriam no mundo por causa dele (João 17:14). “Eu lhes dei a tua palavra para levar ao mundo, e eles a receberam. Creram nela para si mesmos e aceitaram a tarefa de transmiti‑la ao mundo. Por isso o mundo os odiou, assim como me odiou, porque eles não pertencem ao mundo, assim como eu também não pertenço ao mundo.” Aqui vemos o ódio do mundo contra os seguidores de Cristo. Enquanto Cristo estava com eles, já haviam oferecido alguma resistência ao mundo, e ainda assim o mundo os odiou. E os odiaria muito mais quando, pela pregação mais ampla do evangelho, viessem a transtornar o mundo.

Por isso Cristo diz, em essência: “Pai, fica ao lado deles, pois é certo que terão muitos inimigos. Dá‑lhes o teu amor, pois o ódio do mundo é a parte que lhes cabe. Em meio a esses dardos inflamados, cerca‑os com o teu favor como um escudo.” É para honra de Deus tomar o partido dos mais fracos e socorrer os desamparados.

“Senhor, tem misericórdia deles, porque os homens procurariam tragá‑los.” As razões desse ódio fortalecem a oração. Uma delas está aqui implícita: eles receberam a palavra de Deus tal como Cristo lhes entregou, enquanto a maior parte do mundo a rejeitou e se voltou contra os que a pregavam e professavam. Os que recebem a boa palavra de Cristo devem esperar a má vontade do mundo. Os ministros do evangelho têm sido odiados de modo especial porque chamam as pessoas para fora do mundo, separam‑nas dele e as ensinam a não imitá‑lo. Desse modo, expõem ao mundo o seu pecado.

Assim Cristo diz, em essência: “Pai, guarda‑os, porque eles sofrem por tua causa.” É o mesmo argumento do salmista: “Por amor de ti tenho suportado afronta” (Salmo 69:7). Aos que guardam a palavra de Cristo com perseverança paciente é prometida proteção especial na hora da prova (Apocalipse 3:10). A mesma causa que faz um mártir também pode fazer um sofredor alegre.

Outra razão é declarada mais abertamente: o mundo os odeia porque eles não são do mundo. Quando a palavra de Cristo vem com poder, transforma as pessoas. Afrouxa o apego delas às riquezas do mundo, desvia‑as dos pecados do mundo, e por isso o mundo se ofende com elas.

Ele também apresenta ao Pai o fato de que eles são semelhantes a ele na sua santa recusa de se conformar com o mundo (João 17:16): “Pai, guarda‑os, pois eles compartilham do meu espírito e da minha mente. Eles não são do mundo, assim como eu não sou do mundo.” Podemos confiar‑nos ao cuidado de Deus se somos semelhantes a Cristo e seguimos os seus passos. Deus ama aqueles que se parecem com o seu Filho. Também podemos confiar‑nos a Deus se não vivemos para os interesses do mundo nem nos entregamos ao seu serviço.

Observe primeiro que Jesus Cristo não era deste mundo. Ele nunca pertenceu a ele, e isso era especialmente verdadeiro agora, quando estava prestes a deixá‑lo. Isso se vê em sua condição exterior: ele não era favorito do mundo, não era príncipe nem grande homem. Não possuía bens terrenos, nem mesmo um lugar para reclinar a cabeça. Também não tinha poder terreno, pois não era juiz nem governante. E isso se vê em seu espírito interior: era totalmente livre do amor ao mundo. O príncipe deste mundo nada tinha nele. As coisas terrenas nada significavam para ele: não a honra, pois a si mesmo se esvaziou; não as riquezas, pois por amor de nós se fez pobre; não os prazeres, pois foi um homem de dores (João 8:23).

Daí se conclui que os verdadeiros cristãos também não são deste mundo. O Espírito de Cristo neles se opõe ao espírito do mundo. Primeiro, muitas vezes lhes cabe por sorte serem desprezados pelo mundo. Não são mais estimados pelo mundo do que o seu Mestre foi antes deles. Segundo, é privilégio deles serem libertos do mundo, como Abraão foi tirado da terra em que nascera. Terceiro, é seu dever e sua marca estarem mortos para o mundo. A comunhão mais satisfatória deles é, e deve ser, com outro mundo, e sua principal preocupação deve ser com os negócios desse outro mundo, não deste. Os discípulos de Cristo eram fracos e tinham muitas falhas, mas ainda assim ele pôde dizer isto a respeito deles: não eram do mundo. Não eram gente terrena, por isso ele os confiou ao cuidado do céu.

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