Versículo em destaque
João 10:22 - Significado e aplicação
Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje
Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro
" Celebrava-se em Jerusalém a festa da Dedicação. Era inverno. "
João 10:22
Versículo no contexto
Entender os versículos ao redor evita interpretações incorretas:
20 Muitos deles diziam: “Ele está possuído pelo demônio. Ele delira. Por que vocês o escutam?”.
21 Outros diziam: “Estas palavras não são de quem está endemoninhado. Acaso pode o demônio abrir os olhos de um cego?”.
22 Celebrava-se em Jerusalém a festa da Dedicação. Era inverno.
23 Jesus passeava no templo, no pórtico de Salomão.
24 Os judeus o rodearam e lhe perguntaram: “Até quando você nos deixará na incerteza? Se você é o Cristo, diga-nos claramente”.
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Aqui vemos mais um encontro entre Cristo e os judeus no templo. É difícil dizer o que causa mais espanto: as palavras cheias de graça que saíam da boca dele ou as palavras cheias de rancor que saíam da boca deles.
Primeiro, observe o tempo desse encontro. Era na Festa da Dedicação, e era inverno. Essa festa era celebrada todos os anos, por comum acordo do povo, para lembrar a purificação do templo e a consagração de um novo altar por Judas Macabeu, depois de o templo ter sido profanado e o altar contaminado. A história é contada na narrativa dos Macabeus, e Daniel também havia falado disso em profecia (Daniel 8:13-14). Veja também 2 Macabeus 1:18.
Os judeus tratavam essa festa como um memorial alegre da liberdade recuperada, como se fosse vida voltando dos mortos. Era celebrada todos os anos no dia vinte e cinco do mês de Quisleu, perto do início de dezembro, e durava sete dias. Essa celebração não ficava restrita a Jerusalém, como as festas estabelecidas por Deus. As pessoas a guardavam onde moravam, não como um dia santo – pois só a determinação de Deus pode tornar um dia santo –, mas como um dia festivo, como os dias de Purim (Ester 9:19). Cristo estava agora em Jerusalém, não porque essa festa exigisse sua presença, mas porque ele aproveitaria bem esses dias para bons propósitos.
Depois, considere o lugar. Jesus andava no templo, no Pórtico de Salomão (Atos 3:11), assim chamado não porque Salomão o tivesse construído, mas porque ficava na mesma área da parte do primeiro templo que levava o seu nome. O nome permaneceu por causa de sua reputação. Cristo andava ali para observar os atos do grande Sinédrio, o conselho governante dos judeus, que se reunia naquele lugar (Salmo 82:1). Ele também andava ali pronto para ouvir qualquer um que viesse a ele e para oferecer sua ajuda. Parece que ele andou sozinho por algum tempo, como alguém desprezado, e talvez entristecido por prever a futura ruína daquele templo. Quem tiver algo a dizer a Cristo pode encontrá-lo no templo e andar com ele ali.
Agora chegamos ao diálogo em si. Os judeus o rodearam para perturbá-lo, enquanto ele estava pronto para lhes fazer o bem. Escolheram aquele momento para lhe causar dano. Não é coisa rara a má vontade responder ao bem-querer. Nem mesmo na casa do Pai ele podia desfrutar de paz sem interrupção. Cercaram-no como se estivessem armando um cerco, como abelhas ao redor. Vieram também como se estivessem todos de comum acordo numa busca sincera da verdade, mas o verdadeiro propósito era atacar o Senhor Jesus. Disseram: “Até quando nos deixarás em suspenso? Se tu és o Cristo, dize-o abertamente.”
Suas palavras carregavam ao mesmo tempo queixa e desafio. Agiam como se ele tivesse sido injusto em deixá-los esperando e em incerteza. Alguns entendem essa expressão como: “Até quando nos furtarás o coração?”, o que sugeriria que o acusavam de conquistar o povo de forma desleal, como Absalão furtou o coração dos homens de Israel. Mas o sentido mais comum é: “Até quando nos manterás na dúvida? Até quando ficaremos indecisos se tu és ou não o Cristo?” A dúvida deles vinha da incredulidade e de forte preconceito. Depois de Jesus lhes dar provas claras, ainda assim se recusavam a aceitá-las, porque ele não era o tipo de Cristo que desejavam. Quem escolhe duvidar sempre consegue manter objeções pesando tanto quanto as provas mais fortes.
Foi também ousado e desonesto colocarem sobre Cristo a culpa da própria incredulidade. Agiam como se ele tivesse produzido a dúvida por falar de modo obscuro, quando, na verdade, eram eles que se faziam duvidar por se agarrarem ao seu preconceito. Se as palavras da Sabedoria parecem duvidosas, a falha não está na verdade, mas nos olhos de quem ouve. Cristo quer nos conduzir à fé, mas nós podemos nos conduzir à dúvida.
Eles também exigiam que ele desse uma resposta direta, sem figuras de linguagem, se ele era o Messias, o Rei ungido prometido por Deus. Queriam palavras claras, não declarações como: “Eu sou a luz do mundo” ou “Eu sou o bom Pastor”. Porém, a pergunta não era sincera. Se ele dissesse abertamente que era o Cristo, poderiam usar isso contra ele. Todos sabiam que o Messias seria um rei, e os romanos veriam qualquer reivindicação de realeza como rebelião. Provavelmente era isso o que esperavam. Ainda assim, poderiam responder, como já haviam feito: “Tu testificas de ti mesmo” (João 8:13).
Cristo respondeu de modo a se isentar de qualquer culpa quanto à incredulidade deles. Ele os remeteu ao que já havia dito. “Já vo-lo tenho dito”, afirmou. Já lhes dissera que era o Filho de Deus, o Filho do Homem, que tinha vida em si mesmo e autoridade para julgar. Não eram essas indicações suficientes de que ele era o Cristo? Ele tinha dito essas coisas, e eles não creram. Por que, então, deveria repeti-las apenas para satisfazer curiosidade? Eles se apresentavam como quem está em dúvida, mas Jesus declarou que não criam. Dúvida na religião não é melhor do que incredulidade. Não nos cabe dizer a Deus como ele deve nos ensinar, nem exigir que fale somente da forma que nos agrada. Devemos ser gratos pela revelação já concedida.
Ele também os remeteu às suas obras, isto é, ao seu modo de viver e, sobretudo, aos seus milagres. Sua vida era pura e cheia de bondade, e correspondia ao seu ensino. Seus milagres confirmavam sua mensagem. Ninguém poderia fazer tais obras se Deus não fosse com ele, e Deus não apoiaria um enganador nem uma falsificação.
Ele os condena pela obstinada incredulidade, mesmo depois de terem recebido as provas mais claras e fortes. Em essência, ele diz: “Ainda não credes. Continuais sendo o que sempre fostes, obstinados na incredulidade.”
A razão que ele apresenta é surpreendente: “Vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas.” Em outras palavras, eles não creem nele porque não lhe pertencem. Isso pode significar, primeiro, que não estão dispostos a ser seus seguidores. Não são dóceis, ensináveis, nem prontos a receber o ensino e o governo do Messias. Não querem se ajuntar ao seu rebanho nem se aproximar para ouvir sua voz.
Um profundo desgosto pelo evangelho de Cristo é um forte vínculo de pecado e incredulidade. Pode significar, em segundo lugar, que não foram escolhidos para ser seus seguidores. Não estavam entre aqueles que o Pai lhe deu para conduzir à graça e à glória. Se persistirem na incredulidade, essa própria incredulidade provará que não pertencem ao número dos eleitos, o povo que Deus escolheu para a salvação. O que Salomão diz sobre a imoralidade vale também para a incredulidade: é uma cova profunda, na qual cai aquele a quem o Senhor rejeita (Provérbios 22:14). A fé é dom de Deus e procede do seu amor que escolhe.
Ele aproveita esse momento para descrever tanto o caráter gracioso quanto a condição feliz de suas ovelhas, pois tais pessoas existem, ainda que aqueles homens não estivessem entre elas. Para mostrar que eles não eram suas ovelhas, apresenta as marcas de suas ovelhas. Primeiro, elas ouvem a sua voz (João 10:27), porque reconhecem que é a voz dele (João 10:4), e ele prometeu que a ouvirão (João 10:16). Reconhecem essa voz, como a noiva que diz: “Eis a voz do meu amado” (Cantares 2:8). Amam ouvi-la e se sentem em casa quando se sentam aos seus pés para receber sua palavra. Também obedecem a essa voz e fazem de sua palavra a regra da vida.
Cristo não contará como suas ovelhas aqueles que são surdos ao seu chamado e à sua graça (Salmo 58:5). Em segundo lugar, elas o seguem. Submetem-se à sua orientação por uma obediência voluntária a todos os seus mandamentos e por uma aceitação alegre de seu espírito e exemplo. Seu mandamento sempre foi: “Segue-me.” Devemos olhar para ele como nosso líder e capitão, andar em seus passos e viver como ele viveu. Seguimos as orientações de sua palavra, a direção de sua providência e a condução de seu Espírito. Seguimos o Cordeiro, o guia do rebanho, para onde quer que vá. Ouviremos sua voz em vão se não o seguirmos.
Para mostrar como é infeliz não pertencer ao rebanho de Cristo, ele também descreve o estado abençoado daqueles que pertencem a ele. Isso serviria de consolo aos seus seguidores pobres e desprezados e os impediria de invejar o poder e o brilho daqueles que não eram suas ovelhas. O Senhor Jesus leva em conta suas ovelhas: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as.” Ele as distingue dos demais (2 Timóteo 2:19) e vela por cada uma de modo especial (Salmo 34:6). Conhece suas necessidades e desejos, conhece suas almas na angústia, sabe onde encontrá-las e o que fazer por elas. Conhece os outros de longe, mas conhece as suas de perto, de modo íntimo e pessoal.
Ele também preparou para elas uma felicidade que lhes convém: “Eu dou-lhes a vida eterna” (João 10:28). O dom é rico e precioso, pois é vida, vida eterna. Os seres humanos têm almas viventes, por isso a felicidade concedida é uma vida ajustada à sua natureza. Também têm almas imortais, por isso a felicidade preparada é vida eterna, correspondente ao seu ser duradouro. A vida eterna é a verdadeira alegria e o bem supremo de uma alma imortal.
A maneira como esse dom chega até eles é gratuita. Ele diz: “Eu dou a elas”. Não é algo comprado e vendido por um preço, mas dado pela graça livre de Jesus Cristo. Ele tem o direito de dar esse dom. Aquele que é a fonte da vida e Pai da eternidade autorizou Cristo a conceder a vida eterna (João 17:2). Ele não diz apenas “eu darei”, mas “eu dou”, porque é um presente atual. Ele também dá a certeza desse dom, o penhor e as primícias dele, na vida espiritual, que é a própria vida eterna começando agora, como o céu na semente, no broto e no primeiro crescimento.
Ele também assumiu a responsabilidade pela segurança deles até que alcancem essa felicidade. Primeiro, eles serão preservados de uma ruína sem fim. “Jamais perecerão.” Assim como há vida eterna, há também perdição eterna, em que a alma não é aniquilada, mas arruinada; continua a existir, porém perde para sempre todo consolo e alegria. Todos os que creem são livrados disso. Quaisquer aflições que enfrentem, não entrarão em condenação. Uma pessoa não está de fato perdida enquanto não estiver no inferno, e eles não irão para lá. Pastores com grandes rebanhos frequentemente perdem algumas ovelhas, mas Cristo prometeu que nenhuma de suas ovelhas se perderá, nem uma só.
Em segundo lugar, eles não podem ser impedidos de atingir sua felicidade duradoura. Ela está reservada para eles, e aquele que a dá também os guarda para essa herança. O próprio poder dele está empenhado na preservação deles: “Ninguém as arrebatará da minha mão.” Aqui se pressupõe uma séria luta em torno dessas ovelhas. O Pastor está tão zeloso pelo bem delas que as mantém não apenas em seu aprisco e sob seu olhar, mas em sua mão, debaixo de seu amor e proteção especiais. E, mesmo assim, os inimigos são ousados o bastante para tentar arrancá-las dele. Não podem fazê-lo, e não o farão. Estão seguros aqueles que estão nas mãos do Senhor Jesus. Os crentes são guardados em Cristo Jesus, e sua salvação não está sob a guarda deles mesmos, mas sob a guarda de um Mediador, alguém que se coloca entre Deus e a humanidade.
Os fariseus e os principais fizeram tudo o que podiam para amedrontar os discípulos de Cristo e afastá-los de segui-lo. Usaram repreensões e ameaças, mas Cristo declara que não terão êxito. O poder de seu Pai também está empenhado em preservá-los (João 10:29). Ele agora se manifestava em fraqueza e, para que essa segurança não parecesse frágil, acrescenta a proteção do Pai. Seu Pai é maior do que todos. Ele é maior do que todos os outros amigos da igreja e maior do que todos os outros pastores, governantes ou ministros. Pode fazer por seu povo o que outros não podem. Pastores humanos dormem e falham, e seria fácil arrancar ovelhas de suas mãos. Mas ele guarda seu rebanho de dia e de noite. Ele é maior do que todos os inimigos da igreja, maior do que qualquer ataque contra o seu bem e capaz de proteger os seus de toda afronta. É maior do que toda a força reunida do inferno e da terra.
Ele é mais sábio do que a antiga serpente, o diabo, ainda que esse nome resuma astúcia e engano. É mais forte do que o grande dragão vermelho, mesmo que o diabo seja chamado de legião e esteja ligado a principados e potestades, isto é, ordens de governantes espirituais malignos. O diabo e seus anjos fizeram muitas tentativas de alcançar a vitória, mas nunca tiveram sucesso (Apocalipse 12:7-8). O Senhor nas alturas continua sendo mais poderoso.
O Pai também tem um interesse direto nas ovelhas, e isso explica por que seu poder é usado em favor delas. Cristo diz, em essência: “É meu Pai quem as deu a mim, e ele está comprometido com a honra do seu presente.” As ovelhas foram dadas ao Filho como um depósito para que ele cuidasse, por isso Deus vela por elas. Todo o poder divino está empenhado em cumprir todos os propósitos divinos.
Dessas duas verdades aprendemos a segurança dos santos, isto é, dos verdadeiros crentes. Sendo assim, ninguém, nem homem nem diabo, pode arrancá-los da mão do Pai. Ninguém pode tirar deles a graça que já possuem, nem impedi-los da glória que lhes está preparada. Ninguém pode removê-los da proteção de Deus nem colocá-los sob outro poder.
O próprio Cristo conheceu o poder do Pai sustentando-o e fortalecendo-o, e por isso coloca todos os seus seguidores na mesma mão. Aquele que garantiu a glória do Redentor também garantirá a glória dos redimidos. Para dar forte consolação aos crentes, ele acrescenta a unidade desses dois que assumiram responsabilidade por eles: “Eu e o Pai somos um.” Isso significa mais do que acordo, harmonia ou propósito comum em salvar pessoas.
Um homem piedoso é um com Deus no sentido em que concorda com Deus. Portanto, aqui deve haver algo mais forte, a unidade do Pai e do Filho na própria natureza. Eles são o mesmo em essência, iguais em poder e em glória. Os antigos pais da igreja usaram esse versículo contra os sabelianos, para mostrar que o Pai e o Filho são pessoas distintas, e contra os arianos, para mostrar que são um só em natureza. Ainda que nada mais fosse dito sobre esse sentido, as pedras que os judeus pegaram para atirar nele explicariam o significado, porque entenderam que ele se fazia igual a Deus (João 10:33). Ele não desmentiu a interpretação deles.
Ele prova que ninguém poderia arrebatar as ovelhas de sua mão porque ninguém poderia arrebatá-las da mão do Pai. Isso não seria um argumento forte se o Filho não tivesse o mesmo poder onipotente que o Pai, e portanto fosse um com ele em ser e em agir.
A indignação dos judeus contra esse ensino foi feroz e violenta. Eles pegaram pedras outra vez (João 10:31). Não é a mesma expressão usada antes (João 8:59). Aqui a ideia é que eles carregavam pedras grandes, do tipo usado para apedrejar criminosos. Trouxeram-nas de alguma distância, como se já estivessem preparando sua execução sem nenhum julgamento legal. Agiam como se ele já tivesse sido considerado culpado de blasfêmia com provas claras, sem necessidade de mais nenhuma audiência.
O comportamento deles foi absurdo. Tinham exigido ousadamente que ele lhes dissesse claramente se era o Cristo e, agora que ele não só o dissera, mas o demonstrara, o condenavam como se fosse um malfeitor. Se os pregadores apresentam a verdade com suavidade, as pessoas os chamam de tímidos; se falam com ousadia, são chamados de grosseiros. Porém, a sabedoria é justificada por seus filhos.
Eles já haviam tentado o mesmo antes, e tinha fracassado. Ele escapou pelo meio deles (João 8:59). Mesmo assim, repetiram o ataque derrotado. Pecadores ousados ainda atirarão pedras contra o céu, embora essas pedras caiam de volta sobre suas próprias cabeças. Eles se endurecerão contra o Todo-Poderoso, embora ninguém jamais tenha feito isso e prosperado.
Jesus respondeu ao ataque com grande paciência, ainda que eles não lhe dirigissem palavras, a não ser que estivessem incitando a multidão ao redor a gritar: “Apedreja-o, apedreja-o”, como depois clamaram: “Crucifica-o, crucifica-o.” Ele poderia tê-los respondido com fogo do céu, mas respondeu mansamente: “Muitas boas obras vos tenho mostrado procedentes de meu Pai. Por qual dessas obras me apedrejais?” Essas palavras são tão ternas que deveriam abrandar até um coração duro.
Ao lidar com seus inimigos, ele voltou a apontar para suas obras, porque o que alguém faz revela quem ele é. As dele eram boas obras, excelentes e nobres. Eram obras divinas, vindas do Pai, muito acima da ordem da natureza, e por isso provavam que ele fora enviado por Deus e agia sob sua autoridade. Ele havia mostrado essas obras abertamente, diante do povo, e não em segredo. Elas podiam ser examinadas com rigor por qualquer testemunha justa e honesta. Ele não as realizou em lugares ocultos, como se buscasse apenas aparência. Mostrou-as em plena luz do dia, diante do mundo (João 18:20; Salmo 111:6).
Suas obras também realçavam a profunda ingratidão da parte deles, pois não eram apenas milagres, mas atos de misericórdia. Não eram apenas prodígios para causar espanto, mas atos de amor, destinados a socorrer pessoas, melhorá-las e atrair seus corações a ele. Ele curou enfermos, purificou leprosos e expulsou demônios, o que foi bênção não só para os beneficiados diretamente, mas para toda a comunidade. Tinha feito essas obras repetidas vezes. Por isso pergunta: “Por qual dessas obras me apedrejais agora?” Eles não podiam dizer que ele lhes fizera mal ou lhes dera qualquer motivo justo de inimizade. Se queriam uma causa de contenda, teria de ser por alguma boa obra, algum ato de bondade que ele lhes fizera. Dizei-me qual, ele está dizendo.
Isso mostra a gravidade terrível do pecado contra Deus e contra Jesus Cristo. Nossos pecados se tornam muito mais graves por serem cometidos contra a bondade dele. Veja como Deus argumenta nessa mesma linha em (Deuteronômio 32:6), (Jeremias 2:5) e (Miquéias 6:3). E não devemos nos surpreender se as pessoas nos odiarem sem motivo, ou até se opuserem a nós justamente porque as amamos (Salmo 35:12; Salmo 41:9).
Quando Jesus pergunta: “Por qual destas obras vocês querem me apedrejar?”, ele mostra a plena certeza que tem de sua própria inocência. Uma consciência limpa dá coragem para sofrer. Ao mesmo tempo, ele faz seus inimigos pararem para pensar no verdadeiro motivo do ódio deles, chamando-os a examinar a si mesmos, como Jó aconselhou seus amigos (Jó 19:28). Em seguida vem a resposta deles e a tentativa de justificar o que haviam feito, junto com a acusação que levantaram contra ele (João 10:33).
Que pecado não buscará folhas de figueira para se cobrir, se até os perseguidores sanguinários do Filho de Deus encontraram desculpas para si mesmos? Eles disseram: “Não é por alguma boa obra que te apedrejamos”. Na verdade, dificilmente admitiriam que qualquer uma de suas obras fosse boa. Quando ele curou o paralítico e o cego (João 5; João 9), eles não exaltaram essas curas como atos de misericórdia. Em vez disso, as consideraram ofensas, porque foram feitas no sábado. E, ainda que reconhecessem que eram boas obras, não admitiriam que o estavam apedrejando por causa delas, embora esses feitos fossem o que mais os irritara (João 11:47). Assim, ainda que sua posição fosse absurda, não queriam assumi-la como tal.
Eles também queriam parecer amigos de Deus e defensores da sua honra, como se estivessem processando Jesus por blasfêmia, “porque, sendo homem, te fazes Deus”. Aí está um zelo falso pela lei de Deus. Eles agiam como se estivessem profundamente preocupados com a honra da majestade divina e fingiam se horrorizar com o que julgavam ser um insulto contra Deus. A lei determinava que o blasfemo fosse apedrejado (Levítico 24:16), e eles imaginavam que essa lei não apenas permitia o que estavam fazendo, mas o tornava algo santo, como se vê em (Atos 26:9). As piores ações frequentemente são encobertas com desculpas bem formuladas. Nada é mais ousado do que uma consciência bem instruída, e nada é mais violento do que uma consciência enganada (Isaías 66:5; João 16:2).
Mas havia também um ódio real ao evangelho. Não podiam insultar Cristo de forma mais profunda do que chamando-o de blasfemo. Não é novidade que pessoas ímpias ponham o pior rótulo sobre os melhores homens, quando decidem tratá-los mal. A acusação era de blasfêmia, falar contra Deus. O próprio Deus está fora do alcance do pecador e não pode ser atingido em seu ser; por isso, o ódio contra Deus frequentemente ataca o seu nome. É assim que o mal se manifesta.
A “prova” deles era: “Tu, sendo homem, te fazes Deus”. Em certo sentido, estavam certos: o que Cristo dizia de si mesmo realmente significava que ele é Deus. Ele afirmara que era um com o Pai e que dava a vida eterna. Cristo não negou a conclusão deles, o que certamente teria feito se ela fosse falsa. Mas se enganavam gravemente ao tratá-lo como se fosse apenas um homem e ao dizer que sua pretensão de ser Deus era uma invenção sua.
Eles achavam absurdo e pecaminoso que alguém que parecia um homem pobre, comum e desprezado se chamasse a si mesmo de Messias e reivindicasse a honra pertencente ao Filho de Deus. Aqueles que dizem que Jesus foi apenas um homem, ou um “deus feito” depois, acabam, na prática, acusando-o de blasfêmia. E qualquer homem, sendo pecador, que se faz a si mesmo um deus, como faz o papa ao reivindicar poderes e direitos divinos, é claramente um blasfemo, um anticristo.
Cristo respondeu à acusação deles e defendeu as afirmações que chamavam de blasfemas (João 10:34 e seguintes). Ele mostrou que não era blasfemo de duas maneiras. Primeiro, usando a Palavra de Deus. Apelou para o que estava escrito na lei deles, isto é, no Antigo Testamento. Qualquer um que se oponha a Cristo encontrará a Escritura contra si. Está escrito: “Eu disse: vós sois deuses” (Salmo 82:6). É um argumento do menor para o maior. Se outros podiam ser chamados de “deuses” naquele sentido, quanto mais ele poderia ser chamado Deus?
Ele explica o texto assim: foram chamados de “deuses” aqueles a quem a Palavra de Deus veio, e a Escritura não pode ser anulada. A palavra de nomeação de Deus veio sobre eles e os colocou em seus ofícios como juízes, por isso são chamados de deuses (Êxodo 22:28). Alguns receberam a Palavra de Deus diretamente, como Moisés. Outros, por meio de uma ordem estabelecida. A autoridade civil é um dom de Deus, e os governantes agem como servos de Deus; por isso, a Escritura os chama de “deuses”. E a Escritura não pode ser quebrada, revogada ou corrigida. Cada palavra de Deus é verdadeira, e até a maneira como a Escritura se expressa é irrepreensível (Mateus 5:18).
Então Cristo aplica o argumento. Se governantes foram chamados de deuses porque foram designados para governar uma nação, como vocês dizem daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo: “Tu blasfemas”? Aqui Cristo fala de duas coisas.
Primeiro, a honra que o Pai lhe deu, e que ele justamente valoriza. O Pai o santificou e o enviou ao mundo. Governantes eram chamados filhos de Deus embora a Palavra só lhes tenha vindo e o Espírito tenha vindo sobre eles em medida, como aconteceu com Saul. Mas nosso Senhor Jesus era ele mesmo a Palavra, e possuía o Espírito sem medida. Eles foram designados para um país, uma cidade, uma nação. Ele foi enviado ao mundo inteiro, com autoridade sobre todos. Eles foram enviados a um povo que já estava distante. Ele foi enviado, vindo da eternidade com Deus.
Santificá-lo significa que o Pai o separou para o ofício de Mediador, aquele que se coloca entre Deus e as pessoas, e o capacitou para esse trabalho. Santificá-lo é o mesmo que selá-lo (João 6:27). O Pai só prepara pessoas santas para finalidades santas. O Deus santo não emprega nem recompensa senão aqueles que encontra santos ou torna santos. O fato de o Pai ter santificado e enviado Cristo é razão suficiente para ele se chamar Filho de Deus, pois ele era o Santo que seria chamado Filho de Deus (Lucas 1:35; Romanos 1:4).
Segundo, a desonra que os judeus lhe deram, e que ele, com razão, repreende. Eles, de forma perversa, disseram dele, aquele a quem o Pai tanto havia honrado, que era um blasfemo porque se declarava Filho de Deus. “Vocês dizem isso dele? Ousam dizer isso? São atrevidos a ponto de falar contra o céu dessa maneira? Conseguem encarar o Deus da verdade e dizer que ele mente, ou condenar aquele que é perfeitamente justo? Digam isso em voz alta, se forem capazes. Vão chamar o Filho de Deus de blasfemo?”
Se demônios, a quem ele veio para julgar, tivessem dito isso dele, não pareceria tão espantoso. Mas que homens, a quem ele veio ensinar e salvar, digam isso dele é chocante. O céu deveria se admirar de tamanha cegueira.
Considere a linguagem da incredulidade obstinada: no fundo, ela chama o santo Jesus de blasfemo. É difícil dizer o que impressiona mais: que pessoas que respiram o ar que Deus dá ainda falem assim, ou que os que falam assim ainda sejam permitidos a continuar respirando. A maldade do homem e a paciência de Deus parecem disputar entre si qual é mais admirável.
Jesus também responde a partir de suas próprias obras, em (João 10:37, 10:38). Antes, ele havia respondido à acusação de blasfêmia apenas devolvendo o argumento contra eles mesmos. Aqui ele prova claramente sua afirmação de que ele e o Pai são um (João 10:37, 10:38): “Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis”. Ele bem poderia tê-los deixado, como blasfemos, entregues à própria incredulidade, mas ainda assim discute com eles.
Note de que ele tira o argumento: de suas obras, que muitas vezes apresentou como prova e evidência de sua missão. Assim como mostrou que foi enviado por Deus pelo poder divino de suas obras, assim também devemos mostrar que pertencemos a Cristo pelo caráter cristão das nossas obras. O argumento é muito forte, porque as obras que ele fazia eram as obras de seu Pai, obras que só o Pai poderia realizar. Elas não podiam ser feitas pelo curso comum da natureza, mas apenas pelo poder soberano do Deus que criou a natureza.
Eram obras próprias de Deus, obras dignas de Deus, obras de poder divino. Aquele que pode suspender as leis da natureza, alterá-las ou dominá-las quando quiser, por seu próprio poder, é certamente o soberano que primeiro estabeleceu essas leis. Os milagres que os apóstolos fizeram em seu nome, por seu poder e para confirmar sua doutrina, fortaleceram esse argumento e o mantiveram diante do mundo depois que ele subiu ao céu.
Cristo coloca a questão da forma mais justa possível e a conduz a uma prova simples. Primeiro: “Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis”. Ele não pede fé cega, nem que aceitem sua missão divina sem prova. Não conquistou pessoas com truques, insinuações ocultas ou declarações ousadas que atropelassem a razão. Ele dispensa qualquer exigência de fé que vá além das evidências que oferece. Cristo não é um senhor duro que espera que se creia onde não deu razões para crer. Ninguém será condenado por recusar aquilo que nunca lhe foi apresentado com provas suficientes, pois a própria sabedoria infinita é quem julga.
Em segundo lugar, a ideia é: “Mas, se eu faço as obras de meu Pai, se realizo milagres claros para confirmar um ensino santo, então, mesmo que vocês não creiam em mim, mesmo que sejam cautelosos demais para confiar na minha palavra, creiam nas obras. Creiam no que os seus próprios olhos veem e no que a sua própria razão reconhece, porque a verdade está evidente.” Assim como as coisas invisíveis do Criador são claramente percebidas na criação e no cuidado comum de Deus pelo mundo (Romanos 1:20), também as coisas invisíveis do Redentor foram vistas em seus milagres e em todas as suas obras de poder e misericórdia. Aqueles que não foram convencidos por essas obras ficaram sem desculpa.
O ponto que ele quer que eles conheçam e creiam é que o Pai está nele e ele está no Pai. Essa é a mesma verdade que ele já tinha declarado em (João 10:30): “Eu e o Pai somos um.” O Pai estava no Filho de modo tão pleno que toda a plenitude de Deus habitava nele, e ele realizava seus milagres por poder divino. O Filho estava no Pai de modo tão pleno que conhecia toda a vontade do Pai, não por algo que lhe fosse comunicado de fora, mas por um conhecimento interior perfeito, como alguém que repousa em seu seio. Devemos conhecer essa verdade, ainda que não possamos explicá-la completamente, pois não conseguimos sondá-la até o fim. Devemos conhecê-la e crer nela, honrando o mistério mesmo quando não conseguimos alcançar toda a sua profundidade.
Deste capítulo
João 10:1
"“Em verdade, em verdade digo a vocês: quem não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador."
João 10:2
"Mas quem entra pela porta é o pastor das ovelhas."
João 10:3
"A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz à pastagem."
João 10:4
"Depois de conduzir todas as suas ovelhas para fora, vai adiante delas; e as ovelhas o seguem, pois conhecem a sua voz."
João 10:5
"Mas não seguem o estranho; pelo contrário, fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.”"
João 10:6
"Jesus lhes contou essa parábola, mas eles não entendiam do que ele queria falar."
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