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Atos 8:4 - Significado e aplicação

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Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro

" Os que haviam se dispersado iam por toda parte, anunciando a palavra (de Deus). "

Atos 8:4

menu_book Versículo no contexto

2 Entretanto, alguns homens piedosos cuidaram de enterrar Estêvão e fizeram grande pranto por ele.

3 Saulo, porém, devastava a Igreja. Entrava pelas casas, arrancava delas homens e mulheres e os entregava à prisão.

4 Os que haviam se dispersado iam por toda parte, anunciando a palavra (de Deus).

5 Assim, Filipe desceu à cidade de Samaria e lhes pregava Cristo.

6 A multidão prestava atenção ao que Filipe dizia, ouvindo-o unanimemente e presenciando os prodígios que fazia.

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auto_stories Comentário Bible Guided

O enigma de Sansão encontra aqui mais uma resposta: “Do que devora saiu comida, e do forte saiu doçura”. A perseguição que pretendia destruir a igreja, pela providência soberana de Deus, tornou-se meio de espalhá-la. Cristo havia dito que viera lançar fogo na terra, e, quando tentaram dispersar os que tinham sido acesos por esse fogo, apenas ajudaram a espalhá-lo ainda mais longe.

Aqui temos o relato geral do que todos fizeram, em (Atos 8:4): iam por toda parte, anunciando a palavra. Eles não se esconderam com medo de sofrer, nem se exibiram como se tivessem orgulho do sofrimento. Em vez disso, foram de lugar em lugar, levando o conhecimento de Cristo a cada região para onde foram dispersos.

Foram por toda parte, até para terras gentias e para as cidades dos samaritanos, lugares aonde antes lhes havia sido proibido entrar (Mateus 10:5). Não permaneceram juntos como um só grupo, embora isso pudesse tê-los fortalecido externamente. Espalharam-se por todas as partes da terra, não para descansar, mas para trabalhar.

Saíram evangelizando o mundo, anunciando a palavra do evangelho. Era disso que seus corações estavam cheios, e era isso que procuravam difundir pela nação. Aqueles que eram ministros pregavam abertamente, e os demais falavam de Cristo nas conversas comuns. Agora se encontravam em uma região onde não eram totalmente desconhecidos, pois Cristo e seus discípulos já tinham passado muito tempo na Judeia. Ali já havia sido lançado um fundamento, e o povo precisava saber o que tinha acontecido com o ensino que Jesus havia deixado ali anteriormente, para que não pensassem que tudo tinha sido apagado e esquecido.

Agora passamos a um relato mais específico da obra de Filipe. Mais adiante ouviremos sobre o progresso e o êxito dos outros (Atos 11:19), mas aqui devemos acompanhar Filipe. Não se trata de Filipe apóstolo, mas de Filipe diácono, um dos homens escolhidos para servir às mesas. Ele usou bem esse ofício e alcançou excelente posição e grande firmeza na fé (1 Timóteo 3:13). Estêvão foi elevado à honra de mártir, e Filipe foi conduzido à obra de evangelista.

Ao assumir esse novo trabalho, Filipe precisava dedicar-se à palavra e à oração. Por isso, sem dúvida deixou de exercer o ofício de diácono, pois como poderia continuar servindo às mesas em Jerusalém enquanto pregava em Samaria? É provável que outros dois tenham sido escolhidos no lugar de Estêvão e de Filipe.

Observa-se agora o admirável êxito que Filipe teve na pregação, e a acolhida que recebeu. O lugar que escolheu foi a cidade de Samaria, principal cidade daquela região, a capital situada onde antes estava a antiga Samaria, edificada por Onri (1 Reis 16:24), agora chamada Sebaste. Alguns entendem que era a mesma cidade que Siquém ou Sicar, cidade samaritana onde Cristo estivera (João 4:5). Muitos ali haviam crido em Cristo naquela ocasião, embora ele não tivesse feito entre eles nenhum milagre (João 4:39, 41), e agora Filipe dava continuidade à obra iniciada três anos antes.

Os judeus não se comunicavam com os samaritanos, mas Cristo enviou o seu evangelho para pôr fim a essa inimizade. Ele quis especialmente unir judeus e samaritanos em uma só igreja. Filipe pregava Cristo. Fez de Cristo toda a sua mensagem, porque havia decidido nada mais saber senão Cristo. Anunciou Cristo a eles, assim como um rei é proclamado em todo o seu reino quando assume o trono. Os samaritanos já esperavam a vinda do Messias, como se vê em (João 4:25). Agora Filipe lhes anunciava que o Messias havia vindo, e que os samaritanos eram bem-vindos a ele.

Os ministros devem pregar Cristo, Cristo crucificado e Cristo glorificado. Para comprovar sua mensagem, Filipe realizava milagres (Atos 8:6). Esses milagres mostravam que ele tinha uma comissão do céu, de modo que as pessoas não apenas estavam livres para crer no que ele dizia, mas também obrigadas a submeter-se. Deus, que é verdadeiro, jamais confirmaria com seu selo uma mentira. Os milagres não podiam ser negados. Eles ouviam e viam. Ouviam suas palavras cheias de autoridade e viam o efeito imediato: ele falava, e acontecia.

Os milagres eram adequados ao propósito de sua missão e a honravam. Ele fora enviado para quebrar o poder de Satanás, e, assim, espíritos imundos eram ordenados, em nome do Senhor Jesus, a sair de muitos que estavam possuídos (Atos 8:7). Onde o evangelho realmente avança, Satanás perde o domínio sobre as pessoas, e elas são restauradas a si mesmas e ao bom juízo. Enquanto ele as domina, é como se estivessem fora de si.

Onde o evangelho é recebido como deve ser, os espíritos malignos são expulsos. Isso inclui especialmente os espíritos de imundícia, isto é, os impulsos carnais pecaminosos que guerreiam contra a alma. Deus nos chamou não para a imundícia, mas para a santificação (1 Tessalonicenses 4:7). A expulsão desses espíritos do corpo das pessoas apontava para essa obra maior. Eles saíam gritando em alta voz, o que mostra que saíam contra a vontade, pela força, obrigados a admitir sua derrota diante de um poder maior (Marcos 1:26; Marcos 3:11; Marcos 9:26).

Filipe também foi enviado para curar as mentes, para sarar um mundo enfermo e trazê‑lo a um estado saudável. Para demonstrar isso, muitos paralíticos e coxos foram curados. Essas doenças são mencionadas porque eram difíceis de tratar pelos meios naturais, de modo que o milagre ficasse ainda mais evidente. Elas também representavam a doença do pecado e a fraqueza moral que impede as pessoas de servir a Deus. A graça de Deus no evangelho tem por objetivo curar os espiritualmente coxos e paralisados, incapazes de se socorrer a si mesmos (Romanos 5:6).

A doutrina de Filipe, assim confirmada, foi bem recebida em Samaria (Atos 8:6). As multidões, unânimes, prestavam atenção ao que Filipe dizia. Os milagres primeiro chamaram a atenção, e depois, pouco a pouco, vieram a crer. Há motivo de esperança quando as pessoas começam a dar atenção ao que se fala sobre sua alma e sobre a eternidade. Há esperança quando começam a ouvir a palavra de Deus com alegria, desejando entendê‑la, guardá‑la e reconhecendo que ela lhes diz respeito.

O povo simples dava atenção a Filipe, uma grande multidão, não apenas alguns poucos dispersos. Havia entre eles um comum acordo de que o ensino do evangelho devia ser examinado com cuidado e ouvido com justiça.

A alegria do povo vinha de ouvir a pregação de Filipe e de ver tantos crerem em sua mensagem (Atos 8:8, 12). Houve grande alegria naquela cidade. Filipe anunciava o reino de Deus, isto é, sua ordem, suas leis, suas práticas, suas liberdades e bênçãos, e o dever de todos de servi‑lo fielmente. Ele também pregava o nome de Jesus Cristo, o Rei desse reino, tornando conhecidas todas as verdades que Jesus havia revelado a respeito de si mesmo.

O povo fez mais do que ouvir. Com o tempo, ficou convencido de que a mensagem de Filipe vinha de Deus, e não de homens, e entregou‑se a ela. Afastaram‑se também do monte em que há tanto tempo adoravam e no qual concentravam sua religião. Agora tornaram‑se verdadeiros adoradores, que adoram o Pai em espírito e em verdade, e o fazem em nome de Cristo, o verdadeiro templo (João 4:20-23).

Quando creram, e sem qualquer hesitação, embora fossem samaritanos, foram batizados. Confessaram abertamente a fé cristã, prometeram permanecer firmes nela e foram solenemente recebidos na igreja cristã por meio da lavagem com água. Na congregação de Israel, apenas os homens podiam ser admitidos pela circuncisão. Mas em Cristo não há macho nem fêmea (Gálatas 3:28). Ambos são igualmente bem‑vindos a ele, e por isso a primeira ordenança de iniciação é uma que também as mulheres podem receber. As mulheres são contadas entre o Israel espiritual de Deus, ainda que não o sejam pela descendência física (Números 1:2). Disso se percebe com facilidade que as mulheres também devem ser admitidas à Ceia do Senhor, ainda que não pareça que alguma estivesse presente quando ela foi instituída pela primeira vez.

Tudo isso trouxe grande alegria. Cada um se alegrava por si mesmo, como o homem da parábola que encontra um tesouro escondido no campo. Alegravam‑se também pelo bem que havia chegado à sua cidade, especialmente porque isso acontecera sem oposição, o que dificilmente teria ocorrido se Samaria estivesse sob o controle dos principais sacerdotes. A propagação do evangelho em qualquer lugar é de fato motivo de grande alegria. Por essa razão, o Antigo Testamento muitas vezes descreve a expansão do evangelho como alegria entre as nações: “Alegrem‑se as nações e exultem de alegria” (Salmo 67:4; 1 Tessalonicenses 1:6). O evangelho não torna as pessoas sombrias. Quando é recebido como deve ser, enche‑as de alegria, porque é boas‑novas de grande alegria para todo o povo (Lucas 2:10).

O que torna o sucesso do evangelho em Samaria ainda mais notável é o fato de ali já atuar Simão, o Mago, um ocultista que havia conquistado grande influência. Desaprender o que é mau costuma ser mais difícil do que aprender o que é bom. Aqueles samaritanos não eram idólatras como os gentios, nem estavam travados por antigas tradições familiares contra o evangelho. Mas muitos deles, recentemente, tinham seguido Simão, que fazia grande exibicionismo entre eles e os havia enganado de maneira estranha.

A força do engano de Satanás aparece na forma como esse grande enganador conquistou domínio. Simão estava havia algum tempo na cidade, praticando feitiçarias. É possível que tenha ido para lá por instigação do diabo, logo após a passagem de Jesus por aquela região, para desfazer a obra que Cristo começara ali. Satanás sempre procurou esmagar a boa obra ainda no início, como Paulo observa (2 Coríntios 11:3; 1 Tessalonicenses 3:5). Primeiro, Simão reivindicou algo extraordinário para si mesmo. Dizia que ele próprio era um grande personagem e queria que todos acreditassem nisso e lhe concedessem honra nesse nível. Não tinha como alvo melhorar a vida deles nem o culto a Deus, mas apenas que cressem que ele era “um grande homem”, talvez até o Filho de Deus, o Messias, ou algum anjo ou profeta. Talvez ele mesmo não soubesse que título assumir, mas queria ser visto como alguém fora do comum. O orgulho e o amor pela grandeza têm causado grande dano tanto no mundo como na igreja.

O povo deu a Simão a honra que ele desejava. Todos o atendiam, do menor ao maior, jovens e idosos, pobres e ricos, governantes e governados (Atos 8:10-11). Provavelmente estavam ainda mais dispostos a isso porque já havia passado o tempo marcado para a vinda do Messias e todos esperavam, justamente naquele período, o surgimento de alguém grandioso. Talvez ele fosse compatriota deles, o que também os inclinava a honrá-lo e, com isso, honrar a si mesmos. Diziam: “Este é a grande virtude de Deus”, querendo dizer ou o próprio poder de Deus, ou, mais exatamente, aquele grande poder por meio do qual o mundo foi criado. Vê-se aí como as pessoas podem ser ignorantes e descuidadas a ponto de confundir a obra de Satanás com a obra de Deus. Entre os gentios, demônios são tratados como deuses. No reino do anticristo, o mundo inteiro se maravilha após a besta, cujo poder vem do dragão e que profere blasfêmias contra Deus (Apocalipse 13:2-5).

Eles foram levados a isso pelas feitiçarias de Simão. Ele havia enfeitiçado o povo de Samaria (Atos 8:9, 8:11), seja enganando a mente deles a ponto de ficarem profundamente iludidos, seja por sinais e prodígios de mentira que pareciam milagres, mas não eram reais, como os magos do Egito e o homem do pecado (2 Tessalonicenses 2:9). Enquanto não conheciam nada melhor, eram influenciados por seus truques. Mas, quando viram os verdadeiros milagres de Filipe, perceberam claramente a diferença. Um era verdadeiro, o outro era falso. A diferença era tão grande quanto entre a vara de Arão e as varas dos magos. O que é a palha ao trigo? (Jeremias 23:28).

Apesar de Simão Mago ter exercido tão forte influência sobre eles, e apesar de as pessoas, em geral, relutarem em admitir que estavam erradas, ainda assim eles mudaram. Ao enxergarem a diferença entre Simão e Filipe, deixaram de dar ouvidos a Simão e passaram a atender a Filipe. Isso mostra o poder da graça divina. Por essa graça, atuando por meio da palavra, aqueles que tinham sido mantidos cativos pelo diabo foram levados a obedecer a Cristo, que é a própria verdade.

Lá onde Satanás, como um valente armado, dominava e se julgava seguro, Cristo, que é mais forte do que ele, entrou, o expulsou e tomou o despojo. Ele levou cativo o cativeiro e transformou em troféus da sua vitória pessoas de quem o diabo antes se vangloriava. Não se deve perder a esperança nem mesmo quanto aos piores pecadores, quando até pessoas enfeitiçadas por Simão Mago foram levadas a crer.

Há aqui algo ainda mais espantoso: o próprio Simão Mago tornou‑se crente, ao menos em sua profissão exterior, por algum tempo. “Está também Saulo entre os profetas?” Sim, “creu até o próprio Simão” (Atos 8:13). Ele se convenceu de que Filipe pregava a verdade porque viu o ensino confirmado por milagres reais. E podia julgar isso bem, pois sabia, em sua própria consciência, quão falsos eram os seus próprios truques.

A convicção que ele tinha naquele momento foi tão longe que ele foi batizado e recebido na igreja, como os demais crentes. Não há motivo para pensar que Filipe errou ao batizá‑lo, nem por ter feito isso sem demora. Embora Simão tivesse sido muito perverso, feiticeiro e alguém que reclamara para si honras divinas, ainda assim ele fazia séria profissão de arrependimento e fé em Jesus Cristo. Grandes pecados antes da conversão não impedem que verdadeiros arrependidos recebam a graça de Deus, e não devem impedir que, professando a fé, sejam recebidos na comunhão da igreja.

Quando pródigos voltam, devem ser recebidos em casa com alegria, ainda que não se possa ter certeza de que não tornarão a se desviar. É possível até que Simão fosse apenas um hipócrita, permanecendo o tempo todo na “fel de amargura e laço de iniquidade”, e que logo se mostraria assim se fosse posto à prova. Mesmo assim, Filipe o batizou, porque conhecer o coração é algo que pertence somente a Deus. A igreja e seus ministros devem fazer um juízo de caridade, na medida do possível. Há uma regra jurídica segundo a qual, até que o contrário apareça, deve‑se supor o melhor lado. E a disciplina eclesiástica segue o mesmo princípio: a igreja não julga segredos ocultos, pois só Deus julga os segredos do coração.

A convicção de Simão durou o bastante para que ele permanecesse junto de Filipe. Embora mais tarde viesse a apostatar do cristianismo, isso não aconteceu de imediato. Ele buscou a companhia de Filipe, e aquele que antes se apresentara como um grande homem agora se dispunha a sentar aos pés de um pregador do evangelho. Mesmo pessoas muito más podem, às vezes, estar em uma disposição muito boa. E aqueles cujo coração ainda corre atrás do dinheiro podem, mesmo assim, aproximar‑se do povo de Deus e até permanecer com ele por algum tempo.

Essa convicção foi despertada e sustentada pelos milagres. Simão ficou espantado ao ver‑se completamente superado em sinais e grandes feitos. Muitas pessoas admiram as evidências da verdade divina, embora jamais provem o seu poder salvador.

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