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Atos 5:1 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Bíblia BibleGuided — Português Brasileiro

" Um certo homem chamado Ananias, de comum acordo com sua mulher Safira, vendeu um campo "

Atos 5:1

menu_book Versículo no contexto

1 Um certo homem chamado Ananias, de comum acordo com sua mulher Safira, vendeu um campo

2 e, em combinação com ela, reteve uma parte da quantia da venda. Levando apenas a outra parte, depositou-a aos pés dos apóstolos.

3 Pedro, porém, disse: “Ananias, por que Satanás tomou conta do seu coração, para que você mentisse ao Espírito Santo e enganasse a respeito do valor do campo?

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auto_stories Comentário Bible Guided

O capítulo começa com uma virada triste, que interrompe o quadro agradável apresentado nos capítulos anteriores. Mesmo na melhor igreja, sempre há um “mas”, porque nenhuma igreja na terra é perfeitamente pura. Os discípulos eram santos, celestiais e, externamente, muito piedosos; ainda assim, havia hipócritas entre eles. Alguns haviam sido batizados e assumido a forma da piedade, mas nunca viveram de fato pelo poder dela.

Há sempre uma mistura de bem e mal nos melhores grupos deste lado do céu. O joio crescerá junto com o trigo até a colheita final. Os discípulos tinham chegado a um grau elevado de generosidade, daquele tipo que Cristo propôs ao jovem rico, vendendo o que tinham e dando aos pobres. Mas até essa prática tão admirável se tornou, para alguns, um disfarce para a falsidade. Aquilo que parecia a prova mais forte de sinceridade tornou‑se máscara para a hipocrisia.

Até aqui, os apóstolos tinham operado milagres de misericórdia. Agora aparece um milagre de juízo. Deus mostra tanto a sua bondade quanto a sua severidade, para que as pessoas o amem e também o temam. O caso de Ananias e de sua mulher Safira torna o pecado claramente visível. É algo bom quando marido e mulher se unem para o que é justo; mas, quando se unem para o mal, repetem o exemplo de Adão e Eva, que concordaram na desobediência ao comer do fruto proibido.

O primeiro pecado deles foi a ambição. Queriam ser vistos como discípulos de destaque, embora não fossem discípulos verdadeiros. Desejavam parecer as árvores mais frutíferas da vinha de Cristo, embora lhes faltasse a raiz real da fé. Venderam uma propriedade e trouxeram o dinheiro aos apóstolos, como Barnabé tinha feito, para não parecerem menos devotos do que os melhores crentes. Buscavam elogios e uma posição honrosa na igreja, e talvez imaginassem que logo a igreja teria honra e poder neste mundo.

Isso mostra como os hipócritas sabem negar‑se em uma área apenas para servir‑se melhor em outra. Podem abrir mão de um tipo de ganho terreno esperando lucrar de outro modo. Ananias e Safira queriam o nome de cristãos e uma boa aparência diante das pessoas, enquanto zombavam de Deus e enganavam os demais. O jovem rico foi honesto ao retirar‑se triste quando percebeu que não conseguiria aceitar as condições de Cristo. Mas Ananias e Safira fingiram aceitá‑las para receber o crédito de discípulos, e com isso se tornaram uma vergonha para o discipulado. Muitas vezes é perigoso declarar na religião mais do que o coração realmente pode sustentar.

O segundo pecado deles foi a ganância e a desconfiança do cuidado de Deus. Venderam o terreno e, em um primeiro impulso de zelo, podem ter planejado dar todo o valor para fins santos. Talvez até tenham feito um voto nesse sentido. Mas, quando o dinheiro lhes caiu nas mãos, retiveram parte pelo apego a ele e por não quererem se desfazer de tudo de uma vez. Temiam, também, vir a precisar daquele valor mais tarde. Embora, naquele momento, tudo estivesse sendo posto em comum, eles não confiaram que Deus os sustentaria. Tentaram servir a Deus e ao dinheiro, dando uma parte a Deus e guardando outra para si. Seu coração ficou dividido, e por isso foram achados culpados (Oséias 10:2).

Se fossem completamente mundanos, não teriam vendido o terreno. Se fossem totalmente entregues a Cristo, não teriam retido parte do preço. O terceiro pecado deles foi o engano. Queriam que os apóstolos pensassem que haviam trazido o valor total, quando na verdade trouxeram apenas uma parte. Vieram com semblante seguro e aparência de devoção, e colocaram o dinheiro aos pés dos apóstolos como se fosse tudo. Nesse ato, mentiram ao Espírito de Deus, a Cristo, à igreja e aos seus ministros. Esse foi o pecado deles.

Quando Ananias trouxe o dinheiro esperando receber louvor como os outros, Pedro o confrontou imediatamente. Pedro não precisou de testemunhas nem de investigação. Pelo Espírito de Deus, soube do fato em si, ainda que talvez ninguém no mundo, além de Ananias e Safira, o soubesse; e enxergou também o coração mau por trás do ato. Se isso fosse apenas uma fraqueza, fruto de uma tentação repentina, Pedro provavelmente teria falado com maior suavidade e o mandaria para casa a fim de se arrepender. Mas Pedro viu que Ananias havia deliberadamente escolhido esse mal, e por isso não lhe deixou espaço para fingimento ou demora.

Pedro primeiro expôs a raiz do pecado: Satanás havia enchido o coração de Ananias. Satanás não apenas sugeriu a mentira, mas o impeliu a ela. Tudo o que se opõe ao bom Espírito de Deus procede do espírito maligno, e um coração dominado pela ganância é um coração que Satanás pode encher. Alguns entendem que Ananias havia recebido, no passado, dons do Espírito Santo, mas que, depois de resistir ao Espírito, foi dominado por Satanás, assim como um espírito maligno perturbou Saul depois que o Espírito do Senhor se retirou dele. Satanás é um espírito mentiroso e assim se mostrou aqui, como já havia feito por meio dos profetas de Acabe. Foi desse modo que se tornou evidente que Satanás havia enchido o coração de Ananias.

Em seguida, Pedro nomeou o pecado em si: Ananias mentiu ao Espírito Santo. Um pecado tão grave não poderia ter sido cometido se Satanás não tivesse primeiro enchido o seu coração. A expressão “mentir ao Espírito Santo” também pode ser entendida como desprezar o Espírito Santo em si mesmo.

Lightfoot entende Ananias como alguém além de um simples crente comum. Ele supõe que Ananias possa ter sido um ministro e um dos cento e vinte que receberam o Espírito Santo, especialmente por ser mencionado logo depois de Barnabé. Mesmo assim, Ananias teve ousadia de enganar e desonrar esse dom.

Outra interpretação possível é esta: aqueles que venderam suas propriedades e colocaram o valor aos pés dos apóstolos o fizeram movidos de forma especial pelo Espírito Santo, que os capacitou a agir com grande generosidade. Ananias fingiu ter sido movido pelo Espírito Santo da mesma maneira. Mas sua conduta vil mostrou que ele não estava sob a influência do Espírito, pois, se fosse realmente obra do Espírito, teria sido completa e sincera.

Ele também mentiu ao Espírito Santo presente nos apóstolos, aos quais trouxe o dinheiro. Ele desonrou o Espírito ao insinuar que os apóstolos não administrariam fielmente o que lhes fosse confiado, o que era um pensamento perverso, como se fossem infiéis ao encargo recebido. Ou agiu como se os apóstolos, cheios do Espírito, pudessem ser enganados como qualquer outra pessoa. Como Geazi, que foi desmascarado por seu senhor com as palavras: “Porventura não foi contigo o meu coração?” (2 Reis 5:26), Ananias supôs que poderia enganar homens espirituais.

Os profetas falam de modo semelhante sobre Israel e Judá, que agiram traiçoeiramente e mentiram a respeito do Senhor, dizendo: “Não é ele” (Jeremias 5:11-12). Ananias pensou que os apóstolos fossem iguais a ele, e assim mentiu contra o Espírito Santo neles. Agiu como se o Espírito não habitasse neles como aquele que discerne os corações, embora eles tivessem os dons do Espírito de modo especial, com dons distribuídos entre eles conforme a vontade do Espírito (1 Coríntios 12:8-11). Quem afirma falar pelo Espírito, mas na verdade segue o orgulho, a ganância ou a sede de poder, mente contra o Espírito Santo.

Também podemos entender como “mentir ao Espírito Santo” no sentido que aparece em Atos 5:4: “Não mentiste aos homens, mas a Deus”. Ananias proferiu uma mentira deliberada para enganar. Declarou a Pedro que havia vendido uma propriedade e que aquele valor era o preço total. Talvez tenha usado uma formulação cuidadosa, meia‑verdade, na esperança de escapar de uma mentira explícita. Ou talvez tenha dito pouco, mas seu gesto produziu a mesma falsa impressão.

Ele agiu do mesmo modo que os outros que trouxeram o valor integral, e desejava o louvor e a reputação que eles receberam. Assim, seu ato era uma afirmação velada de que tinha trazido tudo, quando, na realidade, reteve uma parte. Muitos são levados a mentiras graves pelo orgulho e pela sede de elogios humanos, especialmente em atos de caridade aos pobres. Para não se gloriar de um dom que não se possui, nem se vangloriar de forma errada de um dom real (Provérbios 25:14), é preciso não se vangloriar de modo algum nessas coisas. Por isso Jesus advertiu: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita”. Quem se gaba de boas obras que nunca realizou, promete boas obras que nunca cumpre, ou faz parecer maior o bem que de fato fez, cai no pecado de Ananias.

Ananias mentiu ao Espírito Santo porque o dinheiro foi trazido, não simplesmente a homens, mas ao Espírito Santo que operava nos apóstolos. Por isso Pedro diz: “Não mentiste aos homens, mas a Deus” (Atos 5:4). Disso conclui‑se corretamente que o Espírito Santo é Deus. Se mentir ao Espírito Santo é mentir a Deus, então o Espírito é verdadeiramente divino. Como observa o dr. Whitby, os apóstolos agiam pelo poder e pela autoridade de Deus; por isso, mentir a eles naquele contexto era mentir a Deus. Ele também ressalta que Ananias mentiu ao Espírito que capacitou os apóstolos a conhecer coisas ocultas nos corações e nos atos das pessoas, poder que pertence somente a Deus.

O pecado foi ainda pior porque Ananias não tinha nenhuma necessidade real de fazer o que fez. Enquanto a propriedade não era vendida, ainda era dele. Depois de vendida, o dinheiro continuava sob o controle dele. Isso pode significar, em primeiro lugar, que ele não estava sob pressão alguma para reter parte do preço. A terra não estava hipotecada, e talvez ele não tivesse nenhuma necessidade especial de guardar parte daquele dinheiro. Ele agiu sem motivo. Ou pode significar, em segundo lugar, que ele não era obrigado a vender a terra, nem a trazer qualquer quantia aos apóstolos. Ele poderia ter ficado tanto com a terra quanto com o dinheiro, se quisesse, e ninguém o teria censurado.

Isso está de acordo com a regra da oferta cristã: ninguém deve ser pressionado como se dar fosse um dever forçado, porque Deus ama a quem dá com alegria (2 Coríntios 9:7). Filemom também foi exortado a fazer o bem de boa vontade, não por obrigação (Filemom 1:14). É melhor não fazer voto do que votar e não cumprir. Assim, teria sido melhor para Ananias não vender a terra do que reter parte do preço depois de fingir entregar tudo. Melhor não reivindicar a boa obra do que realizá-la apenas pela metade.

Uma vez vendida a terra, o dinheiro estava em poder dele. Mas deixou de estar, quando ele o votou a Deus. Ele abriu a boca ao Senhor e, depois disso, não podia voltar atrás. Ao entregarmos nosso coração a Deus, não nos é permitido dividi-lo. Satanás pode se contentar com metade, como uma mãe que aceitaria um filho que nem é seu. Deus, porém, exige tudo ou nada.

Por isso, toda a culpa recai sobre ele: “Por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo?” Note que, embora Satanás tenha enchido o coração dele, ainda assim se diz que Ananias concebeu o pecado em seu próprio coração. Não podemos nos desculpar lançando a culpa no diabo. Ele tenta, mas não força. Somos atraídos e engodados por nossos próprios desejos. Todo mal que se fala ou se faz foi antes concebido no coração do pecador. Portanto, se alguém desprezar a sabedoria, sobre ele mesmo recairá a sua culpa. A acusação termina onde precisa terminar: “Não mentiste aos homens, mas a Deus”.

O que o profeta disse a Acaz se aplica aqui: “Não basta afligirdes os homens, ainda afligis também o meu Deus?” (Isaías 7:13). Moisés disse algo semelhante a Israel: “As vossas murmurações não são contra nós, mas contra o Senhor” (Êxodo 16:8). O mesmo princípio se vê aqui. Ananias pode ter pensado que enganava homens como ele, mas Deus não pode ser iludido. Se tentarmos fraudar a Deus, acabaremos fraudando a nossa própria alma, da maneira mais perigosa.

A morte e o sepultamento de Ananias (Atos 5:5, 6). Ele morreu imediatamente. Quando Ananias ouviu aquelas palavras, ficou sem resposta, como o homem que entrou no banquete de casamento sem veste nupcial. Não tinha nada a dizer em sua defesa, mas isso foi além do simples silêncio. Ele caiu e entregou a vida. Não está claro se Pedro esperava que isso acontecesse, embora provavelmente sim, pois falou de morte com tanta clareza a Safira, sua mulher, em Atos 5:9. Alguns pensam que um anjo o feriu de morte, como aconteceu depois com Herodes (Atos 12:23). Outros pensam que sua própria consciência, esmagada pela culpa e pelo medo, fê-lo desabar.

Talvez, ao ser acusado de mentir ao Espírito Santo, ele se lembrasse de que a blasfêmia contra o Espírito Santo não tem perdão, e esse pensamento o trespassou como uma espada. Vê-se aí o poder da palavra de Deus na boca dos apóstolos. Para uns, é mensagem que dá vida. Para outros, é mensagem que traz morte. Alguns são justificados, isto é, declarados justos diante de Deus, pelo evangelho, enquanto outros são condenados por ele.

Esse juízo sobre Ananias pode parecer severo, mas foi justo. Primeiro, manteve a honra do Espírito Santo, que acabara de ser derramado sobre os apóstolos para estabelecer o reino do evangelho. Ananias insultou o Espírito Santo, como se ele pudesse ser enganado. Sua mentira também ameaçava o testemunho dos apóstolos, pois, se eles não conseguissem detectar essa fraude pelo Espírito, como poderiam revelar às pessoas as profundezas de Deus? Portanto, a veracidade de seus dons e de seu poder precisava ser defendida, ainda que a esse custo.

Segundo, isso serviu de advertência para que outros não agissem da mesma forma no início dessa nova obra de Deus. Mais adiante, Simão, o mago, e Elimas não foram punidos assim, mas Ananias foi feito exemplo no começo. Deus deu prova visível de que receber o Espírito é bênção maravilhosa, mas resistir a ele é perigo grave. De modo semelhante, a adoração do bezerro de ouro foi severamente castigada, assim como catar lenha no sábado, quando esses mandamentos tinham acabado de ser dados. Do mesmo modo, Nadabe e Abiú foram punidos por oferecer fogo estranho, e Corá e seu grupo, por sua rebelião, quando Deus tinha acabado de enviar fogo do céu e confirmar Moisés e Arão.

Importa também notar que foi Pedro quem executou isso, embora ele mesmo tivesse, há pouco tempo, negado seu Mestre com uma mentira. Isso mostra que não se tratava de um ímpeto de ira pessoal de Pedro. Se fosse apenas uma ofensa contra ele, provavelmente teria demonstrado especial paciência, pois ele mesmo já havia falhado e fora perdoado. Em vez disso, foi o ato do Espírito de Deus em Pedro. A afronta havia sido contra o Espírito, e o castigo veio por meio dele.

Ananias foi sepultado de imediato, como os judeus costumavam fazer naqueles dias (Atos 5:6). Os jovens, provavelmente os que haviam sido separados na igreja para cuidar dos sepultamentos, assim como os romanos tinham homens destinados a esse serviço, envolveram o corpo em panos fúnebres, levaram-no para fora da cidade e o enterraram de forma adequada. Eles fizeram isso mesmo tendo ele morrido em pecado e sob juízo divino imediato.

O caso de Safira, mulher de Ananias, que talvez tenha sido a primeira a entrar no pecado e a incentivar o marido. Ela veio ao lugar onde estavam os apóstolos, aparentemente o Pórtico de Salomão, onde eles voltam a ser mencionados em Atos 5:12, a mesma área do templo onde Cristo costumava andar (João 10:23). Ela chegou cerca de três horas depois, esperando ser louvada por ter concordado com a venda da terra, da qual talvez tivesse direito a uma parte. Ela não sabia o que havia acontecido. É estranho que ninguém pareça tê-la informado da morte repentina do marido para que ficasse afastada. Talvez alguém até tenha lhe contado, mas ela não estava em casa. Assim, quando veio se apresentar diante dos apóstolos como ofertante, encontrou juízo em vez de bênção.

Ela foi mostrada culpada de participação no pecado do marido pela pergunta que Pedro lhe fez (Atos 5:8): “Dize-me: Vendestes por tanto aquela herdade?” Ele mencionou exatamente a quantia que Ananias trouxera e colocara aos pés dos apóstolos. Na prática, perguntou: “Foi isso tudo o que recebeste, ou veio mais?” Ela respondeu: “Sim, por tanto.” Ananias e sua mulher tinham combinado a mesma história. Como o negócio era particular e eles o mantinham em segredo, pensaram que ninguém poderia desmenti-los, e assim poderiam sustentar a mentira e receber crédito por ela. É triste quando pessoas que deveriam se fortalecer mutuamente no bem acabam se endurecendo juntas no mal.

Então a sentença foi pronunciada contra ela, e ela compartilhou do juízo de seu marido (Atos 5:9). Primeiro, seu pecado foi claramente exposto: “Por que é que entre vós vos consertastes para tentar o Espírito do Senhor?” Antes de julgá-la, Pedro mostrou a gravidade do que ela havia feito. Eles tentaram o Espírito do Senhor, assim como Israel tentou a Deus no deserto, quando dizia: “Está o Senhor no meio de nós, ou não?” depois de já ter visto tantos milagres de seu poder. Eles haviam visto os apóstolos falarem em línguas diversas, mas será que também eram capazes de discernir espíritos e ver através daquela mentira? Eles achavam que poderiam se esconder nas trevas, mas Deus penetra essas trevas (Jó 22:13). As pessoas que supõem poder pecar com segurança e escapar impunes estão, na verdade, tentando a Deus, como se ele fosse igual a elas.

Eles também se associaram nesse pecado, transformando o vínculo do casamento, que Deus instituiu como laço santo, em laço de maldade. É difícil dizer o que é pior: a desunião no bem ou a união no mal.

Isso parece indicar que o próprio acordo entre eles de sustentar a mentira era outra forma de tentar o Espírito. Era como se pensassem que, uma vez que tivessem prometido guardar o segredo um do outro, nem mesmo o Espírito do Senhor poderia desmascará-los. Cavavam fundo para esconder o plano do Senhor, mas foram levados a ver que tais esforços são inúteis. “Como puderam ser tão cegados? Que estranha loucura se apoderou de vocês, a ponto de ousarem pôr à prova aquilo que está acima de qualquer dúvida? Como vocês, que são cristãos batizados, puderam não se conhecer melhor? Como assumiram um risco tão grande?”

O juízo sobre Safira é então anunciado: “Olha, os pés dos que sepultaram teu marido estão à porta”, talvez porque ela os tivesse ouvido chegando ou porque sabia que não poderiam estar longe, “e eles te levarão também”. Assim como Adão e Eva, que concordaram em comer do fruto proibido, foram expulsos juntos do paraíso, Ananias e Safira, que concordaram em tentar o Espírito do Senhor, foram tirados juntos deste mundo.

A sentença se cumpriu por si mesma. Ninguém precisou executá‑la. Um poder mortal acompanhou a palavra de Pedro, assim como às vezes um poder de cura a acompanhava, pois o Deus em cujo nome ele falava é quem dá a vida e a tira. De sua boca, e Pedro agora falava em nome dele, procedem tanto o bem quanto o mal (Atos 5:10). Então Safira caiu imediatamente aos pés dele.

Deus lida rapidamente com alguns pecadores, enquanto suporta por muito tempo outros. Certamente há razões sábias para essa diferença, embora ele não nos deva explicação. Ela nem sequer tinha ouvido, até aquele momento, que seu marido estava morto. A notícia disso, somada à exposição do seu pecado e à sentença de morte, caiu sobre ela como um raio e a levou como um redemoinho. Há muitas mortes súbitas que não devem ser tratadas como castigo por algum grande pecado semelhante a este. Não devemos supor que todos os que morrem repentinamente sejam piores do que os outros. Às vezes uma morte rápida é misericórdia, porque traz uma passagem breve desta vida. Ainda assim, é um alerta para que todos nós estejamos sempre preparados.

Aqui, porém, é evidente que se tratou de um ato de juízo. Alguns perguntam sobre o estado eterno de Ananias e Safira e pensam que talvez a destruição do corpo tenha sido para que o espírito fosse salvo no dia do Senhor Jesus. Eu concordaria com essa visão caridosa se tivesse havido para eles algum tempo para se arrepender, como aconteceu com o homem imoral em Corinto. Mas as coisas encobertas não nos pertencem. É dito que ela caiu aos pés de Pedro. Ali, onde deveria ter colocado todo o preço e não colocou, ela mesma foi posta, como se, de certo modo, viesse completar o que faltava.

Os moços encarregados dos sepultamentos entraram e a acharam morta. Não se diz que tenham envolvido o corpo dela, como fizeram com Ananias, mas apenas que a levaram como estava e a sepultaram ao lado do marido. Talvez um sinal tenha sido colocado sobre seus túmulos para mostrar que permaneceriam juntos como advertência permanente da ira de Deus contra os que mentem ao Espírito Santo.

Alguns perguntam se os apóstolos conservaram o dinheiro que lhes havia sido trazido, aquele sobre o qual o casal mentiu. Penso que sim. Eles não tinham os escrúpulos estreitos dos que diziam não ser lícito colocar certo tipo de dinheiro no tesouro, pois para os puros todas as coisas são puras. O que foi trazido não se tornou impuro para os que o receberam, mas o que foi retido se tornou impuro para eles que o retiveram. Até mesmo os incensários dos rebeldes de Corá foram usados para um fim santo.

Percebemos também o efeito que isso teve sobre o povo. A narrativa interrompe o relato para dizer que grande temor sobreveio a todos os que ouviram estas coisas, tanto pelas palavras de Pedro quanto pelo que se seguiu, ou pelo eco da notícia espalhada pela cidade. Mais uma vez se diz que grande temor veio sobre toda a igreja e sobre todos os que ouviram estas coisas (Atos 5:5, Atos 5:11).

Os que haviam se unido à igreja foram tomados de profundo temor reverente por Deus e por seus juízos, e de maior respeito por essa obra do Espírito sob a qual agora viviam. Isso não diminuiu a santa alegria deles. Antes, ensinou‑os a serem sérios em sua alegria e a se alegrarem com tremor. Depois disso, todos os que colocavam seu dinheiro aos pés dos apóstolos temiam reter qualquer parte do preço.

Os demais que ouviram sobre o acontecido foram tomados de medo e estavam prontos para dizer: “Quem poderá estar diante desse Senhor Deus santo e do seu Espírito nos apóstolos?”, como em (1 Samuel 6:20).

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