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2 Samuel 1:17 - Significado e aplicação

Entenda como este versículo fala com o que você está vivendo e como aplicá-lo hoje

Tradução: Almeida Corrigida Fiel

" E lamentou Davi a Saul e a Jônatas, seu filho, com esta lamentação "

2 Samuel 1:17

menu_book Versículo no contexto

15 Então chamou Davi a um dos moços, e disse: Chega, e lança-te sobre ele. E ele o feriu, e morreu.

16 Pois Davi lhe dissera: O teu sangue seja sobre a tua cabeça, porque a tua própria boca testificou contra ti, dizendo: Eu matei o ungido do Senhor.

17 E lamentou Davi a Saul e a Jônatas, seu filho, com esta lamentação

18 (Dizendo ele que ensinassem aos filhos de Judá o uso do arco. Eis que está escrito no livro de Jasher):

19 Ah, ornamento de Israel! Nos teus altos foi ferido, como caíram os poderosos!

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auto_stories Comentário Bible Guided

Quando Davi rasgou as roupas, pranteou, chorou e jejuou pela morte de Saul, e ainda fez justiça ao homem que confessou ter parte nela, poderia parecer que ele já havia quitado toda a dívida de honra que devia à memória de Saul. Mas não é tudo. Aqui temos um poema que Davi compôs nessa ocasião, pois ele era habilidoso escritor, além de valente guerreiro. Por meio desta lamentação, ele pretendia tanto expressar sua própria dor diante de tão grande perda, como também comover os outros, para que também a sentissem, pois igualmente deviam tomá‑la a sério.

Colocar lamentações em forma de poema tornava o lamento mais tocante e mais duradouro. O sentimento do poeta ou cantor alcança com mais força os leitores e ouvintes quando vem em versos. Além disso, os poemas se espalham mais e permanecem por mais tempo, podendo ser transmitidos de uma geração a outra. Muitos que não leriam um relato histórico podem, ainda assim, aprender por meio de poemas.

Davi também deu instruções ligadas a essa lamentação (2 Samuel 1:18). Ele ordenou que os homens de Judá, sua própria tribo, fossem instruídos no “arco”. Isso pode significar o uso do arco na guerra. Os homens de Judá já sabiam manusear arcos, pois arco e espada eram armas comuns de combate muito antes disso (Gênesis 48:22). Mas talvez, mais recentemente, tivessem passado a confiar mais em fundas, como Davi quando matou Golias, por serem mais baratas. Davi pode ter desejado que voltassem a usar mais plenamente o arco, porque os flecheiros filisteus haviam apertado Saul duramente (1 Samuel 31:3), e Judá precisava estar preparado para vingar seu príncipe e vencer os filisteus com a mesma arma deles.

Seria lamentável que homens de espírito e coração tão bons como os de Judá não estivessem bem armados. Assim, Davi demonstrou sua autoridade sobre os exércitos de Israel e seu cuidado por eles. Ele também procurou corrigir erros do reinado anterior. Mas vemos que as tropas que vieram a Davi em Ziclague já traziam arcos (1 Crônicas 12:2). Por isso, alguns entendem esse “arco” de outro modo: talvez como um instrumento musical com esse nome, ao qual deveria ser cantado o cântico fúnebre, ou como o próprio nome da lamentação. Então Davi estaria mandando que se ensinasse aos filhos de Judá este “Cântico do Arco”, assim chamado por causa do arco de Jônatas e dos feitos ligados a ele.

Moisés havia ordenado a Israel que aprendesse o seu cântico (Deuteronômio 31:19), e Davi faz aqui algo semelhante. Provavelmente confiou essa tarefa aos levitas, a tribo separada para o serviço do templo. O cântico foi escrito no livro de Jasar, onde foi guardado e depois copiado para esta história. Esse livro era provavelmente uma coletânea de poemas de uso público. O que é dito estar escrito ali em Josué 10:13 também é poético, um trecho de um antigo poema histórico. Cânticos teriam sido esquecidos se não tivessem sido escritos, e a escrita é o melhor meio de preservar o conhecimento.

Essa lamentação não é um hino divino. Não foi dada por inspiração para uso no culto, e nem sequer menciona Deus. É uma composição humana; por isso, não foi colocada no livro dos Salmos, que é de origem divina e preservado, mas no livro de Jasar, que era apenas uma coletânea de poemas comuns e hoje está perdido. Ainda assim, a lamentação mostra em vários aspectos que Davi era um homem de excelente espírito.

Ele foi extremamente generoso para com Saul, seu inimigo declarado. Saul era seu sogro, seu rei e o ungido do Senhor. Portanto, embora Saul o tivesse ofendido profundamente, Davi não se vingou de sua memória depois da morte. Como homem bom e honrado, ele encobriu as falhas de Saul. Ainda que os pecados de Saul não pudessem ser omitidos da história, não deviam ser incluídos nessa lamentação. A caridade nos ensina a pensar o melhor possível dos outros e a não falar mal dos mortos quando nada de bom pudermos dizer. Não devemos alimentar o gosto de fazer ataques pessoais contra quem nos feriu, muito menos usar isso para construir todo um retrato negativo da pessoa, como se qualquer um que nos prejudique seja necessariamente um homem mau de ponta a ponta. Que a parte corrupta seja enterrada com o homem corrupto: terra à terra, cinzas às cinzas. Que a mancha seja coberta e um véu seja lançado sobre a deformidade.

Davi também exaltou em Saul aquilo que era digno de louvor. Ele não lhe atribuiu virtudes que ele não possuía, e não falou de sua piedade nem de sua fidelidade. Louvor fúnebre construído sobre falsidade não honra o morto em nada, e ainda recai negativamente sobre os vivos que o prestam. Mas Davi honrou Saul em pontos verdadeiros. Primeiro, Saul havia sido ungido com óleo (2 Samuel 1:21), o óleo santo que o marcava como escolhido e habilitado para governar. Fosse como fosse em outros aspectos, a coroa do óleo da unção de Deus estava sobre ele, e isso por si só merecia honra, porque Deus, a fonte de toda honra, o havia honrado. Segundo, Saul era um homem de guerra, um valente (2 Samuel 1:19-21). Tinha, muitas vezes, alcançado vitórias sobre os inimigos de Israel e os afligia por onde passava, de modo que sua espada não voltava vazia, mas cheia de sangue e despojos (2 Samuel 1:22). Sua desonra final não devia nos fazer esquecer seus êxitos anteriores e o serviço prestado. Ainda que seu sol tenha se posto em trevas, houve um tempo em que brilhou intensamente.

Terceiro, juntamente com Jônatas, Saul foi um homem de temperamento agradável e cativante, que atraía o amor do povo (2 Samuel 1:23). Saul e Jônatas eram “amáveis e queridos”. Jônatas o foi sempre, e Saul, sempre que estava em boa harmonia com ele. Em batalha, ambos eram ousados e corajosos, mais velozes que as águias e mais fortes que os leões. Aqueles que eram os mais temíveis no campo de batalha não eram menos agradáveis na corte. Eram tão agradáveis para os súditos quanto eram terríveis para os inimigos. Essa rara combinação de delicadeza e força tornava seu caráter especialmente feliz. Isso também pode apontar para a harmonia e afeição que, em geral, havia entre Saul e Jônatas. Jônatas era um filho obediente; Saul, um pai afetuoso. Foram queridos um ao outro em vida e, na morte, não se separaram, mas permaneceram lado a lado diante dos filisteus e caíram pela mesma causa.

Quarto, Saul havia enriquecido seu país com os despojos das nações conquistadas e introduzido um estilo mais rico de vestimenta. Quando Israel passou a ter um rei como as outras nações, também passou a ter vestes semelhantes às das outras nações, e nisso Saul foi especialmente atencioso com as mulheres de Israel (2 Samuel 1:24). Ele vestiu as filhas de Israel de escarlata, o que era um grande prazer para elas.

Além das lágrimas que já tinha derramado por Saul e Jônatas, Davi confere a Jônatas, seu querido amigo e filho de Saul, um lugar especial de honra. Ele diz: “Como caíram os valentes no meio da peleja! Jônatas nos teus altos foi morto” (2 Samuel 1:25), retomando a expressão “a glória de Israel” que ele disse ter caído (2 Samuel 1:19). Davi pranteia Jônatas como seu amigo pessoal, chamando‑o de “meu irmão Jônatas” (2 Samuel 1:26).

Ele não se entristece apenas porque Jônatas poderia ter sido útil se estivesse vivo, embora Jônatas provavelmente o teria auxiliado muito em sua subida ao trono e talvez o tivesse poupado de muitas lutas com a casa de Saul. Se esse fosse o único motivo, o luto seria egoísta. Em vez disso, Davi se dói pelo que Jônatas já havia sido para ele: “Mui precioso me foste, e agora essa doçura se foi, e estou angustiado por tua causa.” O amor de Jônatas foi realmente extraordinário. Ele amou o homem que tiraria a coroa da casa de Saul e manteve fidelidade a esse rival até o fim. Isso foi maior do que o mais forte amor e fidelidade no casamento.

Aprendemos daí que nada neste mundo é mais agradável do que um verdadeiro amigo, alguém sábio, bom, calorosamente afetuoso e fiel em tudo o que realmente importa. E também que nada é mais doloroso do que perder um amigo assim. É como perder parte de nós mesmos. Este é um dos sofrimentos da vida: as coisas que nos são mais queridas são, muitas vezes, as que estamos mais sujeitos a perder. Quanto mais profundamente amamos, mais profundamente choramos.

Davi também se preocupava intensamente com a honra de Deus. Por isso teme que “as filhas dos incircuncisos”, isto é, os que estão fora da aliança de Deus, se alegrem sobre Israel e sobre o Deus de Israel (2 Samuel 1:20). Aqueles que verdadeiramente amam a Deus sentem muito profundamente as afrontas dirigidas a Ele.

Ele se preocupava igualmente com o bem público. “A glória de Israel” havia sido abatida (2 Samuel 1:19), e a honra da nação fora envergonhada. “Como caíram os valentes” é repetido três vezes (2 Samuel 1:19, 25, 27), indicando o quanto a força da nação tinha sido enfraquecida. Pessoas que se interessam pelo bem comum sentem com intensidade as perdas públicas. Davi esperava que Deus o usasse para ajudar a reparar essas perdas, mas, ainda assim, não deixou de pranteá‑las.

Davi também era um homem de imaginação forte, além de sábio e piedoso. Suas palavras são todas belas e visam despertar sentimentos profundos. Seu desejo de que nenhuma notícia da derrota fosse levada a Gate é especialmente marcante (2 Samuel 1:20). Doía-lhe pensar que os filisteus ouviriam falar disso e zombariam de Israel, especialmente porque Israel antes havia cantado a vitória sobre eles, dizendo que Saul havia matado milhares. Aquele antigo cântico agora seria usado contra eles.

Sua maldição sobre os montes de Gilboa, onde a batalha aconteceu, também é poderosa: “Nem orvalho, nem chuva caia sobre vós, nem sejam sobre vós campos de ofertas” (2 Samuel 1:21). Isso é linguagem poética, como o desejo de Jó de que o dia do seu nascimento perecesse. Davi não estava realmente pedindo que qualquer parte de Israel se tornasse estéril. Ele estava demonstrando a profundidade de sua tristeza, falando como se estivesse irado até com o próprio lugar.

Podem-se notar aqui duas coisas. Primeiro, a fertilidade da terra depende do céu. A pior coisa que Davi pode desejar para Gilboa é que se torne estéril e inútil para as pessoas. Lugares que não servem para nenhum bom propósito são, de fato, lugares miseráveis. Cristo usou linguagem semelhante quando amaldiçoou a figueira, dizendo que nunca mais nasceria fruto dela, e a árvore secou.

Segundo, a fertilidade da terra existe para servir a Deus. Por isso Davi fala de “campos de ofertas”, campos cujo fruto seria levado ao Senhor. As colheitas oferecidas a Deus eram a coroa e a glória da terra. Assim, quando a colheita falha, a perda das ofertas é uma parte triste desse fracasso. Faltar-nos o que deveríamos usar para honrar a Deus é pior do que faltar alimento para nós mesmos. Davi lança essa vergonha sobre os montes de Gilboa, que haviam sido manchados com sangue real e, por isso, pareciam ter perdido o direito ao orvalho do céu. Nessa lamentação, Saul recebe um sepultamento mais honroso no cântico de Davi do que recebera dos homens de Jabes-Gileade.

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